terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Em Tom Nordestino, Zé é Fiel às idéias de Dylan


Em depoimento do ralo documentário exibido nos extras do DVD Tá Tudo Mudando - Zé Ramalho Canta Bob Dylan, o compositor e jornalista Nelson Motta defende com razão que nenhum outro artista do Brasil está mais credenciado para fazer um disco com versões de músicas do compositor norte-americano do que o autor de Avohai. Já perfilado com o Bob Dylan do Sertão por conta do canto meio falado, das letras verborrágicas e do misticismo que o fazem ser associado ao bardo, Ramalho encara o desafio de cantar Dylan em português em versões que ora são quase traduções das letras originais (caso de O Vento Vai Responder em relação a Blowin' in the Wind), ora são mais livres, sem contudo deixar de ser fiel em maior ou menor grau à firme ideologia de Dylan (caso de Rock Feelingood, a versão de Tombstone Blues que cita até o filmeTropa de Elite ao abordar a conivência da classe média com a guerra gerada pelo tráfico de drogas). Rockfeeling Good é uma versão já pré-existente de Maurício Baia que ganhou uns versos adicionais de Ramalho. A faixa tem adição da guitarra virtuosa de Robertinho de Recife, co-produtor do projeto. Já a música-título -Tá Tudo Mudando, versão de Things Have Changed, ótimo tema da seara mais recente de Dylan - é tocada com a guitarra de Frejat.

Novas ou antigas, fiéis ou livres, as versões cantadas por Ramalho a rigor quase nunca alcançam o vôo poético das letras existenciais de Dylan. O que dá um toque especial ao projeto é a intenção de trazer a obra de Dylan para o universo da música nordestina. A sanfona de Dodô Moraes pontua, por exemplo, O Amanhã É Distante, versão de Babal e Geraldo Azevedo para Tomorrow Is a Long Time, gravada por Azevedo em 1985 no disco A Luz do Solo. Já If Not for You - a única música entoada por Ramalho com os versos originais, em inglês - é formatada no ritmo agalopado recorrente no cancioneiro do compositor paraibano. Assim comoBatendo na Porta do Céu, a versão II de Knocking on Heaven's Door (aliás, inferior à primeira). É dentro desse espírito brazucaque Mr. Tambourine Man se transforma na figura sedutora de Mr. do Pandeiro, em alusão (explicitada na letra em português, escrita por Bráulio Tavares em 1978) a Jackson do Pandeiro (1919-1982).

Gravado em show fechado, feito sem platéia, o DVD reproduz as mesmas 12 faixas do CD homônimo, editado simultanea e separadamente. Contudo, o DVD é prejudicado pelas introduções algo vagas feitas pela jornalista Ana Maria Bahiana antes da exibição de cada música. Custa crer que uma jornalista com o currículo de Bahiana - ícone da crítica musical dos anos 70 e referência para todas as gerações posteriores de críticos - tenha aceitado falar um texto tão pomposo e com dois erros graves, um de informação e outro de omissão. A informação errada diz respeito à origem da música Don't Think Twice, It's All Right (Não Pense Duas Vezes, Tá Tudo Bem na versão cantada por Ramalho). Bahiana afirma se tratar de música lançada pelo autor em disco dos anos 70 quando, na realidade, a composição é de The Freewheelin' Bob Dylan, o álbum de 1963 no qual Dylan lançou o hino Blowin' in the Wind. Já a omissão é feita quando, ao apresentar a faixa Negro Amor, a jornalista não ressalta o fato de a versão (de alto teor poético) de It's All Over Now, Baby Blue ser da lavra fina de Caetano Veloso e Péricles Cavalcanti, dando a entender que se trata de mais uma das criações de Ramalho. E tal omissão é agravada pelo fato de na mesa redonda comandada pela jornalista Christina Fuscaldo - atrativo dos extras em que nomes como Bráulio Tavares e Maurício Baia detalham a origem das versões mais antigas - também não ser feita qualquer referência à autoria da bela Negro Amor. Erros e omissões à parte, Tá Tudo Mudando é projeto fiel ao tom e à ideologia do próprio Ramalho.
Mauro Ferreira

DVD - Tá Tudo Mudando



Já está nas lojas o dvd que é um tributo a Bob Dylan.

1. Wigwam / Para Dylan
2. O Homem Deu Nome A Todos Animais 
3. Tá Tudo Mudando
4. Como Uma Pedra A Rolar
5. Negro Amor
6. Não Pense Duas Vezes, Tá Tudo Bem 
7. Rock Feelingood
8. O Vento Vai Responder
9. Mr. Do Pandeiro
10. O Amanhã É Distante
11. If Not For You 
12. Batendo Na Porta Do Céu - Versão II 
13 - Frevoador (Hurricane) - Extras
14 - Batendo Na Porta Do Céu - Extras
15 - Mister Tamborine Man 
16 - Jacarepaguá Blues

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Eu Nunca tive um Disco que Não Fosse Malhado pela Critica

Ele acaba de lançar um álbum e já coleciona críticas. Aqui, Ramalho devolve pedradas em forma de ataques à mídia e ao jornalismo. E fala de drogas e de ETs

Zé Ramalho é fã de Bob Dylan e Raul Seixas mas não é tiete, tanto que preferiu não conhecer o músico quando ele fez show no Brasil. Neste mês, o músico lança Zé Ramalho canta Bob Dylan (EMI) com versões em português das canções do americano. Antes mesmo de chegar às lojas o novo trabalho já vinha sendo fortemente criticado pela imprensa porque Zé teria feito traduções literais das músicas. Ramalho recebeu a reportagem do JT no Rio de Janeiro, no escritório de sua produtora, a Jerimum Produções, e não censurou perguntas. Falou desde sua experiência com cogumelos alucinógenos até o suposto contato com uma entidade extraterrestre.

Por que fazer versões brasileiras das músicas do Bob Dylan?

Fazer um disco de versões de Dylan em inglês é uma coisa que o mundo todo faz. Saiu no ano passado, por exemplo, o disco Dylanesque, de Bryan Ferry. A minha intenção de fazer letras em português é um pouco romântica. É um trabalho difícil. Muitas vezes você traduz a letra de uma canção em inglês sendo que a sonoridade em português é diferente.

Como conseguiu autorização de Bob Dylan?

Eu não o conheço pessoalmente, apesar de ter ido ao show dele no Rio de Janeiro, no início do ano. Nunca quis ser tiete. Continuo sendo seu fã, ele é uma pessoa que me inspirou muito. Preparei um pacote com a tradução de todas as músicas e Aluízio Reis, presidente da Sony Songs, foi mostrar para a assessoria de Dylan. Da parte dele não houve qualquer constrangimento em achar que eu estava deturpando suas canções ou fazendo caricaturas. Ele autorizou todas sem observações e ainda pediu que mandasse o disco para ele guardar no acervo.

Como foi fazer este projeto?

Estava amadurecendo há muitos anos. É um projeto pessoal, não se trata de homenagem, tributo. Fiz o projeto de forma clara, transparente e sem qualquer vergonha. Nos próximos anos pretendo repetir a dose e lançar Zé Ramalho Canta Luiz Gonzaga e Zé Ramalho Canta Jackson do Pandeiro.

Está preocupado com a reação dos fãs de Dylan?

Pode até ser que exista alguma reação dos fãs de Dylan, ou não. Eles podem gostar quando perceberem que o trabalho foi formatado para uma língua tão difícil quanto o português.

Como encara os críticos?

Nunca tive um disco, em toda a carreira, que não fosse em algum momento malhado por algum setor da crítica (no dia da entrevista foi publicada no Rio de Janeiro uma crítica ferrenha ao novo disco de Ramalho). Sabe aquele ditado: “os cães ladram, mas a caravana passa?” Todo ano lanço um disco de carreira e vou passando com minha caravana. A cachorrada sempre late e sei que se jogar algumas migalhas de minha atenção eles vão parar, mas eu não faço isso. Sigo em frente, deixo eles latindo com fome, com raiva. Sempre foi assim e sempre será. Nunca andei de mãos dadas com a crítica, não vou me envolver com isso.

Ficou com receio deste trabalho ficar aquém dos autorais?

A sonoridade que conseguimos com este disco foi espetacular. A pessoa para avaliar um disco como esse tem de conhecer muito dos dois trabalhos e principalmente de música brasileira. É fácil ouvir um trecho de cada música e escrever algo para justificar o seu trabalho. O editor que manda você cobrir música também o manda escrever sobre o lançamento de peças íntimas femininas. Você não escolhe o que quer fazer. Estamos nas mãos de estagiários ou pessoas que estudam um ano e seis meses para aprender apenas o métier. São essas as pessoas que escrevem sobre seu trabalho. Não dá para levar a sério.

Você já disse que fumava maconha para compor. Ainda mantém esse hábito?

Hoje em dia, não mais. Foram coisas superadas. Não que a maconha seja danosa. A maturidade traz isso para você. Todas as experiências que tive com a maconha, cocaína e cogumelo foram coisas do período de garoto. A maconha eu estendi por alguns anos porque abria a cabeça e me dava inspiração. Hoje em dia sou uma pessoa completamente sóbria.

Como você lidou com o tema drogas com seus filhos?

Sempre fui muito discreto com as drogas, nunca fui pego em lugar público. Nunca houve algum flagrante, sempre fiz essas coisas na minha caverna. Depois que eles cresceram conversei com cada um. Minha filha mais nova vai fazer 14 anos. Explico para eles do que se trata e nunca tive embaraços. Tenho seis filhos de idades diferentes. São pessoas que me inspiram e me deram muita força.

Você se acha o seguidor da obra de Raul Seixas?

Tudo o que as pessoas sentem é verdadeiro, eu não posso rejeitar uma atitude e uma avaliação dessas. Eu me deixo levar. Permito e sinto isso. A admiração que eu tenho por Raul é muito grande. O Raul era um gênio, trazia para a sua música filosofia do povão.

É padrinho de um museu de ufologia no Rio Grande do Sul. Como é sua experiência com ETs?

A questão dos discos voadores é longa, mas eu acredito nessas coisas. Não digo que é religião, mas é minha referência da criação do mundo, sobre quem somos e de onde viemos. Não só acredito como tenho certeza. Faço disso, no entanto, uma coisa muito discreta. Quando você conversa sobre disco voadores as pessoas riem de você, chamam de maluco. Ninguém procura um disco voador, simplesmente acontece.

Já teve algum contato desses?

Quando eu estava fazendo a música Avohai eu tive uma aproximação grande do que se pode chamar de contato. Não foi nada de alguma criatura. Eu estava fazendo uma experiência com cogumelos alucinógenos. Quando você está com substância na cabeça, sente e pode ver coisas além. Vi uma nave em cima de mim. Foi durante essa experiência que tive a mensagem da música. Eu a considero a melhor música da minha vida. Ela apareceu desse jeito, de uma forma mediúnica. Acredito que somos uma experiência de civilizações superiores às nossas. Dizem até que a tecnologia das fibras ópticas e do forno de microondas foram passadas pelos alienígenas, nos EUA, no local que eles chamam de Área 51.

Você acredita em Deus?

Deus é um conceito. Raul Seixas já dizia: ‘Deus é aquilo que me falta para compreender o que eu não compreendo’. Aceito que as pessoas tenham isso como algo sério, mas Deus é uma criação do homem, mais do que o homem é criação de Deus.

Hoje é mais difícil trabalhar com música do que há 10 anos?

É mais difícil porque tudo virou uma selvageria. O romantismo foi banido das rádios e estações de TV. Quando um artista está lançando um show toda a mídia vai atrás das celebridades que estão na platéia. O artista lá na frente é só pretexto, não tem mais a mínima importância. Um show de artista hoje só é considerado importante mediante o número de celebridades que consegue ter em sua platéia. Quanto aos críticos de música, não reverencio esses caras. Alguns ficam zangados por eu não falar com eles. Vai chegar o dia em que não vou fazer mais nem isso aqui, o olho no olho. Vou fazer tudo por e-mail. Já deveria ter tomado essa decisão. Depois de muitas entrevistas você começa a atropelar as suas respostas. O e-mail me dá a chance de, solitariamente, responder com calma.

Você se considera um poeta?

Modestamente, sim. Foi o que eu consegui com muito custo.

Fonte:
Felipe Branco Cruz
Jornal da Tarde

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Clipe de Bob Dylan inspira capa do paraibano Zé Ramalho

Há um Bob Dylan no sertão paraibano, e poucos brasileiros se deram conta disso. Agora, a relação está escancarada. Com "Zé Ramalho Canta Bob Dylan", seu 22º álbum em 30 anos, o primeiro assume sem reservas sua porção Robert Zimmerman (nome de batismo do segundo).
São 12 canções de um homem que canta meio falado interpretadas por um outro que também canta meio falado. Mas, mais do que interpretações, Zé Ramalho reescreveu as letras. Fez versões, transformando, por exemplo, "Things Have Changed" (as coisas mudaram) em "Tá Tudo Mudando" e "Blowin' in the Wind" (soprando no vento) em "O Vento Vai Responder".
"Antes de gravar, as versões foram levadas pessoalmente, pelo presidente da Sony Songs (Aloysio Reis), aos EUA, para apreciação do Dylan e seus assessores. Depois da avaliação, a assessoria mostrou ao Dylan e ele liberou totalmente todas as versões, inclusive com 'louvor', ganhando elogios dele etc.", contou Zé Ramalho à Folha.
Algumas músicas ganharam explicação adicional. É o caso de "Mr. Tambourine Man", cuja letra ganhou um personagem bem brasileiro: "Hey, Jackson do Pandeiro/ Toque para mim/ Não estou com sono e não tenho para onde ir".
"Quanto a essa história do Jackson do Pandeiro e outras citações brasileiras, todas foram explicadas pelo Aloysio Reis. Só começamos a gravar o disco depois das autorizações", esclarece o paraibano. E, claro, as músicas ganharam roupagem nordestina, com sanfonas.
A exceção é "If Not for You", que manteve a letra em inglês. "Achei que, adaptar uma música como essa, cantada na língua natural e arranjada como eu fiz, com um ritmo nordestino agalopado, ficaria interessante, e acho que ficou! Esse arranjo tem também uma inspiração na gravação que George Harrison fez desta mesma música, no seu álbum 'All Things Must Pass' [1970]."

Escolha

Fã de Dylan desde o fim dos anos 60, quando saía da adolescência, Zé Ramalho teve certa dificuldade para escolher as canções do álbum. Afinal, Dylan gravou cerca de 500 músicas em sua carreira.
"Tenho quase todos os discos de Bob Dylan. É difícil ter a coleção completa, devido à dificuldade de encontrar todos os CDs no Brasil. Gosto muito dos álbuns: 'Blood on the Tracks' [1974], 'Slow Train Coming' [1979], 'Desire' [1976] e a trilha sonora de 'Pat Garrett & Billy the Kid' [1973]."
"Para o meu álbum, adotei como critério fazer uma teia de canções de épocas diferentes. Além disso, procurei dividir as letras em situações diferentes. Há as que eu chamo de canções de separação, como por exemplo 'Negro Amor' ('It's All Over Now, Baby Blue') e 'Não Pense Duas Vezes, Tá Tudo Bem' ('Don't Think Twice, It's All Right'); canções de cunho religioso como 'O Homem Deu Nome a Todos Animais' ('Man Gave Name to All the Animals') e 'Batendo na Porta do Céu' ('Knockin' on Heaven's Door'); ou canções lisérgico-visionárias como: 'Mr. do Pandeiro' ('Mr. Tambourine Man') e 'Como uma Pedra a Rolar' ('Like a Rolling Stone'). Isso facilitou muito o processo de escolha."

Versões

Essa não foi a primeira vez que Zé Ramalho gravou Dylan. Em 1992, o brasileiro fez uma versão de "Hurricane" para seu álbum "Frevoador" e, nos anos seguintes, registrou interpretações traduzidas de "Tomorrow Is a Long Time" e "Knockin' on Heaven's Door".
Em 2001, fez um disco inteiro em homenagem a outro artista: "Zé Ramalho Canta Raul Seixas", que vê como o início de uma série. "São discos que mostram a minha leitura destes dois artistas que muito me influenciaram, interagindo na obra deles, da maneira como faço. É uma espécie de projeto ('Zé Ramalho Canta'). No futuro, provavelmente sairão 'Zé Ramalho Canta Luiz Gonzaga' e 'Zé Ramalho Canta Jackson do Pandeiro'."
O lançamento sai em duas versões: CD ou DVD, com dez mil exemplares cada um. No DVD, a jornalista Ana Maria Bahiana comenta as canções.

Fonte:
Ivan Finotti
http://www1.folha.uol.com.br

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Réquiem para o Circo - Made in PB




Neste compacto de 1976, Zé declama o texto "O Monólogo do Palhaço" , era do grupo Ave Viola que são seus conterrâneos, o disco era em formato de um poster, ele dobrado em partes formava a capa do compacto.





Visionário Cantador

Com sua guitarra estratosférica
E seu grito cantador 
Zé Ramalho segue o verso e a rima
Do iluminado encantador
Avôhai, padinho Ciço, nosso senhor
Abençoai o visionário
Que traz em seu dicionário 
Palavras de um poeta cantor
Em sua mente tudo brilha
Quando os cometas se alinham 
Se agrupam no seu som
Com seus mistérios e segredos
Desafia sem medo
A filosofia de qualquer doutor 
Enquanto o olho cego vagueia
Procurando o matador
Ele saca sua espingarda 
De seu alforje de caçador
E no céu tudo se ilumina 
Com as luzes de um grã-vizir
Quando o poeta escrevi sua poesia
Espalhando magia
Sobre o chão de giz
É a semente de um poeta
De um visionário cantador
Que semeia no ventre da querubinas
Felinas, o amor
Das mulheres sabe os mistérios
E conhece toda a dor
Delas faz frevo, banquete e flor
Entre a serpente e a estrela
Ali está o grande mistério
Da vida e do amor
Segue a viajar pelo espaço
Com teu som e com teu poetar
Apanha na vila do sucesso 
Teu taxi lunar
Segue o verso e a rima
Do iluminado encantador
Pois essa é tua sina
É o que de fascina
O que te faz ser
O visionário cantador.

Sandro Kretus

O Andarilho da Terra do Fogo
http://recantodasletras.uol.com.br/e-livros/1346801 

sábado, 20 de dezembro de 2008

Mistérios da Meia-Noite

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

O Vento vai Responder

Quantos caminhos se tem que andar

Antes de tornar-se alguém
Quantos dos mares temos que atravessar
Pra poder na areia descansar
Quantas mais balas perdidas voarão
Antes de desaparecerem
Escute o que diz
O vento, my friend
o vento vai responder
Quantas vezes olharemos o céu
Antes de saber enxergar
Quantos ouvidos terá o poder
Para ouvir o povo chorar
Quantas mais mortes o crime fará
Antes de se satifazer
Escute o que diz
O vento, my friend
O vento vai responder
Quantos anos pode uma montanha existir
Antes do mar lhe cobrir
Quantos seres ainda irão torturar
Antes de libertar
Quantas cabeças viraram assim
Fingindo não poderem ver
Escute o que diz
O vento, my friend
O vento vai responder

(Bob Dylan, versão Zé Ramalho)

Batendo na Porta do Céu II

Mãe, tire essas algemas de mim

Me proteja com o seu véu
Está escuro demias pra ver
Me sinto até batendo na porta do céu
Bate, bate, bate na porta do céu
Bate, bate, bate na porta do céu
Mãe tira essas armas pra mim
A camisa e o chapéu
A grande nuvem escura já me envolveu
Me sinto até batendo na porta do céu
Bate, bate, bate na porta do céu
Bate, bate, bate na porta do céu.

(Bob Dylan, versão Zé Ramalho)

Mr. do Pandeiro

My Mister do Pandeiro, toque para mim
Não estou com sono e não tenho onde ir
Hey, Jackson do Pandeiro, toque para mim
E entre as canções desta manhã
Eu poderei te seguir
Sei que, à noite, seus impérios
Desmoronam sobre o chão
Ao toque das minhas mãos
Eu só enxergo na manhã
Um sol de assassinar
O cansaço me atordoa
Enquanto eu ando para o além
Procurando por ninguém
Em velhas ruas, já desertas
Sem poder sonhar
Hey, Mister do Pandeiro, toque para mim
Não estou com sono e não tenho onde ir
Hey, Jackson do Pandeiro, toque para mim
E entre as canções desta manhã
Eu poderei te seguir
Me leve nas viagens
Do seu mágico navio
Eu já cansei deste vazio
As minhas mãos tremem de frio
Mas os meu pés, que o chão feriu
Ainda têm forças pra seguir
O teu caminho
Eu irei onde você quiser
Pelas rotas que tracei
Se o teu canto eu escutei
Enfeitiçado eu fiquei
E sei que já não vou seguir sozinho
Hey, Mister do Pandeiro, toque para mim
Não estou com sono e não tenho onde ir
Hey, Jackson do Pandeiro, toque para mim
E entre as canções desta manhã
Eu poderei te seguir
Se uma gargalhada louca
Esvoaçar pela amplidão
E ecoar sem direção
Alguém vai pensar que são
As muralhas horizonte a desabar
E se alguém ouvir o eco
De uma canção feita em pedaços
Ressoando nos espaços
É só a voz deste palhaço
Que canta, enquanto segue os passos
De uma sombra que ele vive a procurar
Hey, Mister do Pandeiro, toque para mim
Não estou com sono e não tenho onde ir
Hey, Jackson do Pandeiro, toque para mim
E entre as canções desta manhã
Eu poderei te seguir
Vou sumir por entre a névoa
De um delirio enfumaçado
Entre as ruinas do passado
Deixo a folhagem glacial
De um bosque branco e sepulcral
Vou para um mar de vendavais
Longe das barras da tristeza e da aurora
Sob um céu de diamantes
Vou dançar com um menino
Entre o oceano cristalino
E um circo errante e peregrino
Deixo as memórias e o destino
Sumir num abismo sem fim
Quero, amanhã, lembrar que hoje
Eu fui embora
Hey, Mister do Pandeiro, toque para mim
Não estou com sono e não tenho onde ir
Hey, Jackson do Pandeiro, toque para mim
E entre as canções desta manhã
Eu poderei te seguir.

(Bob Dylan, versão Braúlio Tavares)

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Ramalho Dylan: Zé Zimmermam da Paraiba

A possibilidade de um paraibano do Brejo do Cruz ter algo em comum com um judeu norte-americano das planicies geladas do meio-oeste pode parecer insólita até que se realiza que ambos compartilham um profundo amor pela palavra cantada. E que a palavra cantada, no continente americano , viaja rápido e destemidamente, sem tomar conhecimento de fronteiras, nacionalidades e rótulos. Basta olhar para as raiz de seus trabalhos, Zé Ramalho descobrindo repentistas e cordeleiros quando ainda estava no colégio, Robert Zimmermam ouvindo, na mesma época, talking blues do Sul mais profundo. Entre cordel e talking blues estende-se uma ponte muito curta que tem em comum a cultura popular narrativa poética, antiga como os vedas: a possibilidade de contar uma história, fazer um comentário, tecer considerações, evocar memórias, filosofar, delirar, usando uma base harmônica e melódica. Papiros, tabletes, runas e canções.
Em sua geração de compositores/cantores pós-tropicalistas, Zé Ramalho sempre traçou uma curva distinta, enraizada nessa cantoria, nessa cantação, que conta coisas suspensas entre o real e o sonhado, entre vida dura e imaginação febril. Os paralelos , muito naturais, sempre estiveram lá. De certa forma, este é um trabalho muito esperado.
Aqui estão 12 canções do Bob Dylan , vindas de diferentes fases de sua vasta e produtiva carreira, todas reinventadas por Zé Ramalho. Não são apenas as letras que ganharam seu equivalente no português do Brasil, as canções mesmas descobriram novos laços através dos continentes, transformando-se em xotes, baiões, cocos (depois deste disco, talves o
Mr. Tambourine Man nunca mais seja outra pessoa além de Jackson do Pandeiro...). Não são versões , são transfigurações , atos de magia musical e poética, como um mútuo piscar de olhos entre dois grandes artistas populares.

Ana Maria Bahiana

Tá Tudo Mudando



Ao Vivo no Grammy Latino 2008

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Nas Lojas


Finalmente chegou às lojas o tão esperado cd "Tá Tudo Mudando" em qual o Zé homenageia o cantor norte-americano Bob Dylan, que muitos o comparam em virtude de suas letras musicais.
O cd foi produzido por seu amigo Robertinho do Recife, e vai ser comercializado pela EMI ODEON, em 1992 ele já tinha cantado Bob Dylan com a música "Frevoador" (Hurricane) no disco que levava o mesmo nome da música.
No disco ele dá vida às músicas antigas mas a faixa que dá nome ao cd é uma versão de "Things Have Changed" que deu um Oscar a Bob Dylan (Garotos Incriveis), o disco ainda traz a versão de "Blowin in the Wind" (O Vento vai Responder) e "Like a Rolling Stone" (Como uma Pedra a Rolar).
A música que dá nome ao cd é de autoria de Gabriel Moura e Mauricio Baia que assinam também a música Rock Feelinngood e Negro Amor é do baiano Caetano Veloso e a música que mais me chamou a atenção foi a nova versão da música "Batendo na Porta do Céu", que nesta versão tem a genialidade de Geraldo Azevedo e Braúlio Tavares.

O cd está à venda nas Americanas

http://www.americanas.com.br/AcomProd/580/2652465

domingo, 7 de dezembro de 2008

1º no Mundo


Ele vai ter o privilégio de ser o 1º cantor a interpretar a música "Dehra Dun" do beatle George Harrison, a música foi composta no ano de 1968 na India para fazer parte do disco "Álbum Branco" mas a mesma não foi incluida no disco.
A música está no segundo cd da Trilogia "Álbum Branco" do Selo Discobertas, no primeiro cd ele canta a música "Dear Prudence".
Ele foi convidado por ser um grande fã dos Beatles e especialmente de George Harrison



sábado, 6 de dezembro de 2008

Dehra Dun

domingo, 30 de novembro de 2008

Zé Ramalho Canta Bob Dylan



1 Medley: Wigwam / Para Dylan
2 O Amanhã é Distante
3 If Not for You
4 Batendo na Porta do Céu (Versão II)
5 O Homem Deu Nome a Todos Animais
6 Tá Tudo Mudando
7 Como uma Pedra a Rolar
8 Negro Amor
9 Não Pense Duas Vezes, Tá Tudo Bem
10 Rock Feeling Good
11 O Vento Vai Responder
12 Mr. do Pandeiro

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Zé Ramalho Muda Tudo

Não foi na recente passagem de Bob Dylan pelo Brasil que Zé Ramalho finalmente conseguiu ficar frente a frente com seu ídolo de juventude. O músico paraibano, a bem da verdade, nem tentou um encontro. Sabe-se que Dylan é figura difícil, mas Ramalho ameniza. "Como ele viaja tanto, resta pouco tempo para descansar." O mais próximo que ele ficou do norte-americano foi na platéia de shows de sua turnê brasileira.

Ao homem que lhe fascinou pelas letras longas e pelo jeito muito particular de cantar, Zé Ramalho dedica seu próximo trabalho, Tá Tudo Mudando, que será lançado em CD e DVD. Nele, o músico escancara versões para o português, de sua autoria e outros compositores, de clássicos de Dylan. A faixa-título, composta por Maurício Baia e Gabriel Moura, por exemplo, é uma versão da recente "Things Have Changed" (vencedora do Oscar de Melhor Canção Original pelo filme Garotos Incríveis, de 2000).

Inspirado pela emblemática "Blowin' in the Wind", Ramalho escreveu "O Vento Vai Responder". A bíblica "Man Gave Names to All the Animals" foi rebatizada literalmente de "O Homem Deu Nome a Todos Animais". Com o parceiro Babal, transformou "Like a Rolling Stone" em "Como Uma Pedra a Rolar" e, com outro parceiro, Maurício Baia, "Tombstone Blues" virou "Rock Feelingood". Versões de Caetano Veloso, Bráulio Tavares e Geraldo Azevedo também entraram no projeto.

"É difícil versionar para uma língua como o português idéias tão revolucionárias como as dele. Tive cuidado para não fugir da visão do poeta", confessa. Mas, para seu alivio, Dylan já aprovou o "formato musical nordeste-mpb-quase nada de pop" que o brasileiro imprimiu em sua obra. "Ele mandou dizer que quer ouvir quando estiver pronto!" Dylan vai ouvir essas e outras versões, além de "If Not for You" (em inglês) e a inédita "Para Dylan". Zé Ramalho e banda já mergulharam na maratona de ensaios no Studio Robertinho de Recife (Rio de Janeiro), mas devem iniciar as gravações em julho, em sessões ao vivo.

Fonte:
http://www.rollingstone.com.br

sábado, 1 de novembro de 2008

Mr. Tambourine Man

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Tá Tudo Mudando

Foto: Divulgação Por suas letras verborrágicas, Zé Ramalho sempre foi associado a Bob Dylan, ainda que o tom apocalíptico do cancioneiro do artista paraibano transite em universo distante da obra do compositor americano.
Seja como for, este eventual parentesco vai ser realçado no CD ‘Zé Ramalho Canta Bob Dylan — Tá Tudo Mudando’, nas lojas em breve. No disco, produzido por Robertinho de Recife, Ramalho insere o repertório de Dylan no universo da MPB e da música nordestina através de versões que buscam fidelidade às letras originais.

Canção inédita

Não é a primeira vez que Ramalho verte Dylan. ‘Frevoador’, a faixa-título do CD que ele lançou em 1992, era versão de ‘Hurricane’, um dos clássicos de Dylan. Em ‘Tá Tudo Mudando’, aliás, a opção foi por priorizar os sucessos antigos, embora a faixa-título seja versão de ‘Things Have Changed’, a recente canção da trilha do filme ‘Garotos Incríveis’ que rendeu um Oscar a Dylan. Tanto que estão garantidas no repertório as versões de ‘Like a Rolling Stone’ (‘Como uma Pedra a Rolar’) e de ‘Blowin’ in the Wind’ (‘O Vento Vai Responder’).
Nem tudo, porém, é versão no CD que vai ser editado pela gravadora EMI Music também no formato de DVD. Ramalho ficou de cantar ‘If Not for You’ no original em inglês e de apresentar uma ou outra música inédita de sua autoria, caso de ‘Para Dylan’, idealizada para servir como recado ao compositor norte-americano.
Dono de obra autoral, Ramalho não assina todas as versões de ‘Tá Tudo Mudando’. A faixa-título, por exemplo, é da lavra de Gabriel Moura (compositor carioca identificado com o universo do samba) e Maurício Baia. Baia é colaborador também da versão de ‘Tombstone Blues’, que se transformou no ‘Rock Feelin’good’.
De Caetano Veloso, Ramalho recupera a bela ‘Negro Amor’, versão de ‘It’s All Over Now, Baby Blue’, lançada por Gal Costa em 1977 num de seus álbuns mais roqueiros, ‘Caras e Bocas’.
Sem se afastar do universo nordestino que norteia a sua discografia, Ramalho — que já fez sucesso com boa versão de ‘Knockin’ on Heaven’s Door’ (‘Batendo na Porta do Céu’) — também requisitou as colaborações de parceiros como Geraldo Azevedo e Bráulio Tavares.

Fonte:

Mauro Ferreira
http://terra.com.br

sábado, 18 de outubro de 2008

Ao Profeta


Eu deveria ter uns doze ou treze anos quando meu pai comprou a então versão em vinil em compacto daquela música chamada Avohai. O outro lado do disquinho era Vila do Sossego. Meus pais adoravam as músicas e perdi a conta das vezes em que a colocavam para tocar durante uma semana. Eu ficava ouvindo aquele som diferente e aquela letra estranha, mas enigmática mas hipnótica, mesmo para a pouca idade que contava naquela época.

O cantor daquelas músicas volta e meio aparecia nos programas da televisão existentes naqueles idos, e lembro vagamente que ficávamos assitindo entre encantados e embasbacados. Era um cantor e compositor paraibano muito estranho, pelo menos para os padrões vigentes na mentalidade do povo brasileiro de então. Uma figura muito exótica na sua apresentação - algo semelhante a um hippie remanescente dos idos de sessenta. Ou seria setenta?

Com o passar dos anos fomos vivendo e acompanhando volta e meia as novidades músicais do Zé Ramalho que em muitas vezes era denominado com o codinome de Profeta da Paraiba, dado o teor mistico e surreal das suas composições. E por causa daquela primeira Avohai nunca mais pude me desprender da obra musical sem paralelo no nosso país, daquel tal Profeta.

E com o passar dos anos pude também visitar a terra de origem deste Profeta - como aliás acabo de fazer com a familia pela terceira vez! E pude compreender melhor de onde vinha a inspiração daquela música do outro mundo. Pude emergir no espirito da canção Beira-Mar, onde ele diz em duas versões que entende "(...) a noite como um oceano que banha de sombras um mundo de sol aurora que luta por um arrebol, de cores vibrantes e ar soberano(...)".Pude compreender que nasceu da magia daquela natureza paradisiaca o fôlego de versos como "(...) pode ser que ninguém me compreenda/quando digo que sou visionário(...) mas a mente talvez não me atenda/se eu quiser novamente retornar para um mundo de leis me obrigar/a lutar pelo erro do engano/eu prefiro um galope soberano/a loucura do mundo me entregar."

Ainda bem que Zé Ramalho não se entregou à loucura do mundo - assim como a prodigiosa natureza paradisiaca da Paraiba. Ainda bem que o mar por lá - limpo, morno, manso, cristalino e hipnótico, com os seus coqueirais a perder de vista e a sua areia branca, a tranquilidade imanente naquelas praias sem fim: o calor humano do povo de João Pessoa indicativo da religiosidade merente no próprio lugar - insistem - ainda! - em se manter os mesmos.

De uma terra como aquela só poderiam brotar profetas! Profetas da beleza impar da melodia e da palavra, da poesia profunda e transcedente. Artistas transmissores do autêntico espírito da paz tão escasso nos nossos dias, e do qual anda a humanidade tão sedenta em meio a desastres, desespero, e caos aéreos sem explicação plausível em meio as stress crônico e desassossegado peculiar ao ultra povoamento das cidades do sul!

Eu demorei a prestar esta homenagem, talvez que também gerado e vinda à luz como uma flor! Como aquele belo girassol à beira-mar na praia do Cabo Branco, ornando como jóia rara o panorama divino de João Pessoa que nos presenteia o espírito e os olhos cansados com inigualável reconforto originado nas fontes celestiais!

Obrigado a este pequeno e insuspeitado pedaço dos céus baixado à Terra e às terras brasileiras por esta oferta de luz impagável dos nossos seres! Obrigada por nos presentear com o perfume dos ares puros, com o idílio visual das suas paisagens verdes e inigualáveis , com o calor humano do seu povo!

E obrigado por ter nascido, da tranqüilidade destas paragens de vastos e mansos mares verdes, de águas tépidas, para nós – e para o supremo encanto do nosso espírito! O soberano Zé Ramalho, com a maravilha da sua obra poética e musical!

 Obrigada ao nosso Profeta da Paraiba!

 Com amor

 Cristina Nunes

 Fonte:

 http://recantodasletras.uol.com.br

http://ocaricato.zip.net/

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Discografia Completa

Neste link abaixo você consegue baixar todos os discos.



http://cinemusika.blogspot.com/2008/08/discografia-z-ramalho.html

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Agreste Psicodélico


No dia 29 de dezembro de 1598, os soldados liderados pelo capitão-mor da Paraíba, Feliciano Coelho de Carvalho, encalçavam índios potiguares quando, em meio à caatinga, nas fraldas da Serra da Copaoba (Planalto de Borborema), um imponente registro de ancestralidade pré-histórica se impôs à tropa. Às margens do leito seco do rio Araçoajipe, um enorme monólito revelava, aos estupefatos recrutas, estranhos desenhos esculpidos na rocha cristalina.

O painel rupestre se encontrava nas paredes internas de uma furna (formada pela sobreposição de três rochas), e exibia, em baixo-relevo, caracteres deixados por uma cultura há muito extinta. Os sinais agrupavam-se às representações de espirais, cruzes e círculos talhados, também, na plataforma inferior do abrigo rochoso.

Inquietado com a descoberta, Feliciano ordenou minuciosa medição, mandando copiar todos os caracteres. A ocorrência está descrita em Diálogos das Grandezas do Brasil, obra editada em 1618. O autor, Ambrósio Fernandes Brandão (para quem Feliciano Coelho confiou seu relato), interpretou os símbolos como “figurativos de coisas vindouras”. Não se enganara. O padre francês Teodoro de Lucé descobriu, em 1678, no território paraibano, um segundo monólito, ao se dirigir em missão jesuítica para o arraial de Carnoió. Seus relatos foram registrados em Relação de uma Missão do rio São Francisco, escrito pelo frei Martinho de Nantes, em 1706.

Em 1974, quase 400 anos depois da descoberta do capitão-mor da Paraíba, os tais “símbolos de coisas vindouras” regressariam. Dessa vez, no formato e silhueta arredondada de um disco de vinil. A mais ambiciosa e fantástica incursão psicodélica da música brasileira – o LP Paêbirú: Caminho da Montanha do Sol, gravado de outubro a dezembro daquele ano por Lula Côrtes e Zé Ramalho, nos estúdios da gravadora recifense Rozemblit.

Contar a história do álbum, longe da amálgama das pessoas, vertentes sonoras e, especialmente, da chamada Pedra do Ingá que o inspirou, é impossível. Irônico é que o LP original de Paêbirú também tenha se convertido em “achado arqueológico”, assim como a pedra, 33 anos depois de seu lançamento. As histórias sobre a produção do disco, como naufragou na enchente que submergiu Recife, em 1975 e, por fim, se salvara, são fascinantes.

A prensagem de Paêbirú foi única: 1.300 cópias. Mil delas, literalmente, foram por água abaixo. A calamidade levou junto a fita master do disco para que a tragédia ficasse quase completa. Milagrosamente a salvos ficaram somente 300 exemplares. Bem conservado, o vinil original de Paêbirú (o selo inglês Mr Bongo o relançou em vinil este ano) está atualmente avaliado em mais de R$ 4 mil. É o álbum mais caro da música brasileira. Desbanca, em parâmetros monetários (e sonoros: é discutível), o “inatingível” Roberto Carlos. O Rei amarga segundo lugar com Louco por Você, primeiro de sua carreira, avaliado na metade do preço do “excêntrico” Paêbirú.

A expedição no rastro dos mistérios e fábulas de Paêbirú se inicia em Olinda (Pernambuco). O artista plástico paraibano Raul Córdula me recebe em seu ateliêr. Na parede do sobrado histórico, uma cobra pictográfica serpenteia no quadro pintado por ele. A insígnia foi decalcada da mesma inscrição que, há milênios, permanece entalhada na Pedra do Ingá.

No mesmo ano de Louco por Você, 1961, o professor de geografia Leon Clerot apresentou o monumento a Córdula. O professor fizera o convite: “Me acompanhe, e verás algo que jamais se esquecerá”. Uma década depois, 1972, Raul Córdula se tornou amigo de José Ramalho Neto, o jovem Zé Ramalho da Paraíba. Os conterrâneos se conheceram no bar Asa Branca, que Córdula tinha na capital, João Pessoa: “O único boteco que ficava aberto na Paraíba inteira depois das oito horas da noite, à base de ‘mensalão’ pago à polícia”. O Zé Ramalho compositor, atesta, nascera no Asa Branca.

Cristiano Bastos

http://www.rollingstone.com.br

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

O Que é Simpatia

sábado, 16 de agosto de 2008

Entrevista (2003)


Zé Ramalho, 53 anos, convida seus fãs para um passeio pela música popular brasileira em “Estação Brasil”, um CD duplo que comemora 25 anos de carreira. É o último disco de uma trilogia que começou em 1997 com a “Antologia Acústica” e prosseguiu em 2000 com “Nação Nordestina”. “A ‘Antologia Acústica’ está associada ao meu trabalho de mais sucesso como compositor. ‘Nação Nordestina’ está conectado com os autores do Nordeste e com a minha região através de um foco político. ‘Estação Brasil’ é a minha relação com o meu país, as coisas que ficaram durante os últimos 30 anos no meu subconsciente”.

O músico conta que há muitos anos acalentava um álbum como “Estação Brasil”. “É um disco de intérprete que queria fazer há muito tempo. Preparei uma caminhada para chegar até ele. A partir do meu sétimo disco, ‘De Gosto, de Água e de Amigos’ (1985), comecei a gravar músicas de outros autores: ‘Paralelas’, do Belchior. No disco seguinte, ‘Opus Visionário’ (1986), gravei ‘Um Índio’, de Caetano Veloso, e por aí vai.”

Para abrir o álbum, Zé escolheu a inédita “Nesse Brasil Caboco de Mãe-Preta e Pai João”, em que ele apresenta as matrizes da música brasileira. “É calcada numa cantoria de viola chamada ‘Brasil de Caboclo, de Mãe-Preta e Pai João’, uma modalidade que pertence aos martelos de 10 linhas onde essa rima é obrigatória. Nesse gênero, tem que se falar do Brasil Colônia, da chegada dos europeus na nossa terra. Uma reunião de conceitos da cultura musical: o batuque africano chegado através dos escravos, a sofisticação européia dos portugueses e as nossas flautas e cantos indígenas. A música brasileira sai toda daí”.

As duas músicas seguintes também são uma exaltação à brasilidade, “Águas de Março”, de Tom Jobim, e “O Trenzinho do Caipira”, de Heitor Villa-Lobos e Ferreira Gullar. “‘Águas de Março’ no original é erudito com jazz, esta também é sofisticada, mas procurei injetar uma brasilidade com os tambores do mangue beat, que são as trovoadas das águas de março”. Zé Ramalho marcou sua carreira por músicas que refletiam sobre coisas como o significado da vida e a busca do autoconhecimento, daí seu critério de afetividade o levou a canções como “Caçador de Mim” (14 Bis e Milton Nascimento) e “O Que é o Que É” (Gonzaguinha). “Em Caçador de Mim peguei uma coisa meio Bob Dylan, ela é muito envolvente. Na música do Gonzaguinha procurei fazer uma coisa dramática porque é muito filosófica.” De Djavan, Zé pinçou “Meu Bem Querer”, uma balada que o marcou muito na época em que estourou, 1980.

Som para levantar a poeira marca presença

Zé Ramalho passou no vestibular para canção romântica, mas o forró está bem representado. “Não Quero Dinheiro”, de Tim Maia, virou um forró arretado que ele vai aplicar nas festas de São João do Nordeste. “Esse formato que vem de ‘Frevo Mulher’ está muito ligado ao meu trabalho, sinto uma certa facilidade de adaptar algumas músicas a este formato frevo mulher, como eu chamo”. “Mesmo Que Seja Eu”, de Erasmo e Roberto Carlos, ganhou um arranjo parecido e também vai ser trabalhada nas festas nordestinas do meio de ano. Outra que vai levantar poeira nos terreiros é “Asa Branca” e Zé diz que, apesar de ser a enésima gravação do clássico de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, graças a uma idéia de Sivuca, ele conseguiu algo diferente, que mudou a harmonia para menor, dando tom triste, mas com pressão de ritmo.

Outro mestre lembrado é Jackson do Pandeiro, e sua conhecida “Cantiga do Sapo”, que Zé regravou com uma batida irresistível e um bem sacado corinho infantil de pergunta e resposta. E ele aproveita para alertar para a importância de seu Jackson. “Quem quiser cantar, tem que escutar cantores que saibam brincar com as palavras no meio dos compassos. Dois caras fazem isso muito bem, um lento, João Gilberto, em que os compassos estão passando e ele está correndo atrás. Jackson corre na frente, é mais rápido. Esses dois caras você tem que ouvir para saber brincar com as palavras, uma coisa sofisticada, um selvagem e o outro bem calmo”, diz ele, com um riso de quem aproveitou bem os ensinamentos da vida.

Fonte:
Revista Época

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Entrevista (1978)


Em Busca do Gosto Popular

Ele veio da Paraíba, é fanático por violeiros e não tem pretensões de inovar nada. Mas já conseguiu, no seu disco de lançamento, juntar Sérgio Dias, Dominguinhos e Patrick Moraz.

Em lugar dos bisturis, as cordas de uma viola, O receituário foi preterido pelas partituras ou pelo guardanapo de uma mesa de bar, sempre à mão para a inesperada inspiração. E em lugar do consultório, o palco. Felizmente para a música popular brasileira, isso aconteceu a José Ramalho Neto, que, entretanto, não deixou de lado as fortes e marcantes influências de sua pequena cidade natal na Paraíba, Brejo do Cruz, e de toda a região Nordeste. Junto a características tipicamente regionais – Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro –, estão também Roberto Carlos, Beatles, Rolling Stones e Caetano Veloso.
Morando com violeiros – Por sinal, os primeiros shows do ex-universitário a que João Pessoa e Recife assistiram desde 1971 até quase três anos mais tarde, deliciavam seus poucos espectadores com músicas de Caetano. A saída eram os bailes “para livrar uma nota”, como se defende Ramalho. “A primeira oportunidade concreta surgiu quando Alceu Valença me convidou para participar do Festival Abertura, no início de 75. Foi minha primeira experiência com o público sul, o que foi muito duro, pois achava as pessoas difíceis, bem como o sistema das gravadoras e das rádios.”
Nessa mesma época, empreendeu um trabalho ao lado de Tânia Quaresma para o filme “Cordel, Repente e Canção”, o que viria a despertar o interesse pela cultura dos violeiros, repentistas, emboladores e pela linguagem de cordel e os versos, ingredientes até então acomodados em suas origens.
As coisas começariam a melhorar logo em seguida, quando, ainda ao lado de Alceu, excursionou durante todo o ano pelo Brasil. E, é lógico, a região que mais mexeu com seu potencial criativo latente foi a Paraíba, Pernambuco, Ceará, as cidades de Juazeiro do Norte e Grato, onde conviveu com violeiros. “Cheguei a morar na casa deles, ouvindo e vendo o modo deles viverem, de exercerem sua profissão, seus sofrimentos.”
Com tudo isso, assimilava e reunia fatores para a elaboração de seu próprio trabalho, que começaria a ser estruturado depois de terminado o show, ao retornar à Paraíba.
Preguiça — Alguns teipes na bagagem, descia outra vez para o temido sul, escorado agora pelas lições dos violeiros. “Essa posição de artista do povo, que fica lá no meio de uma feira com um bocado de pessoas ao redor, é um exemplo de profissionalismo fantástico, porque eles vivem realmente só daquilo. Só sabem cantar e tocar, vivendo da maneira mais humilde e mais rica possível.”
De novo o Rio de Janeiro não o receberia de braços abertos, apesar de a crítica especializada chegar a apontá-lo, no final de 77, como a revelação do ano. “Fiz pequenas apresentações por uns dois anos em shows de entrevistas coletivas de artistas. Na batalha com as gravadoras, senti que havia preguiça por parte das primeiras, mesmo se gostassem do meu trabalho. Mas as pessoas já começavam a me conhecer.”
No entanto, a sorte estava para mudar. Através do produtor Carlos Alberto Sion, era contratado pela CBS para a realização do elepê “Zé Ramalho”. Nele conseguiu colocar, lado a lado, o ex-Mutantes Sérgio Dias, Paulo Moura, Altamiro Carrilho, Dominguinhos, Geraldo Azevedo, Chico Batera e até mesmo Patrick Moraz, que contribuiu tocando sintetizador em “Avohai”, uma homenagem ao patriarca da família Ramalho. Dessa forma, unindo os mais variados representantes de diversos gêneros musicais, confirma sua definição para o elepê de estréia. “Há unidade no disco, mas não há estilo. Tem música instrumental, choro, elementos urbanos, de rock, rurais, linguagem de violeiros. Não vejo estilo nenhum nas músicas, mas vejo unidade, pois o som tem “n” formas de você tratá-lo, de você somar e agregar a outras formas.”
Despretensioso — O disco pode não ter um estilo definido, mas as pretensões de seu intérprete denotam uma busca de seu objetivo máximo: o povo. “Quem compra disco é o povo. Os intelectuais recebem de presente das gravadoras. Eu nEo sei se vou conseguir atingir a massa do povão com esse disco. Ele é muito meu interior, o meu espírito.
Mas eu já sinto uma necessidade de falar para o povo, que é uma coisa que cada dia está entrando mais em mim”, Tal preocupação inicia-se pela própria afinação de sua viola de 10 cordas, baseada na de Zé Limeira, cantador e violeiro paraibano, já falecido. “A viola de 10 cordas dá maiores condições para você combinar as notas em terças, inclusive afinar as cordas todas numa nota só. Zé Limeira fazia isso e também me colocou em contato com uma dimensão de linguagem de repentista, uma linguagem totalmente surreal. As pessoas diziam que suas coisas não tinham sentido. Talvez não tivessem um sentido poético, elegante, mas eu as acho um caleidoscópio.”
E onde se coloca Zé Ramalho na música popular brasileira? A resposta é direta e soa convincente na voz grave deste paraibano de 29 anos, que conseguiu superar as dificuldades iniciais e agora já pode mostrar seu trabalho em temporadas nos teatros Tereza Raquel, no Rio, e São Pedro, em São Paulo, e especiais para a televisão, fora os que gravou para a Cultura e Bandeirantes. “Não tenho pretensão nenhuma de me situar como inovador de nada. Estou fazendo meu trabalho da forma mais espontânea, corno eu gosto de fazer qualquer coisa, Só que ele é de uma realidade muito grande e eu nEo tenho dúvida nenhuma do que estou apresentando.
E não é fácil você se estabilizar com música, principalmente sendo estreante. Se a coisa fosse fácil, todo mundo era!”

Fonte:
Revista Música

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Zé Canta Beatles


O CD duplo Álbum Branco em homenagem aos 40 anos do disco dos Beatles terá a participação do com a música "Dear Prudence", o cd vai ser lançado ainda este ano pela gravadora Coqueiro Verde de propriedade do cantor Erasmo Carlos.


sábado, 19 de julho de 2008

Entrevista (2002)

Aos 52 anos de idade e 27 de carreira, o cantor e compositor Zé Ramalho encarna como poucos a decantada capacidade de sobrevivência do povo nordestino. Nascido em Brejo da Cruz, sertão da Paraíba, ele foi tentar a sorte no Rio de Janeiro nos anos 70, sem ter onde morar. Dormiu na rua durante um ano, chegou ao sucesso logo no primeiro disco, mas também conheceu o outro lado da fama. Derrubado pela cocaína, caiu no ostracismo até provar que é, antes de tudo, um forte. Lançando novo disco pela BMG, O Gosto da Criação, só de músicas inéditas, fato raro no mercado fonográfico, o compositor dá prosseguimento à recuperação consolidada em 1997, com o sucesso de Antologia, que celebrou os 20 anos de carreira. Três casamentos – atualmente divide o teto com a economista Roberta –, e pai de seis filhos (entre 6 e 27 anos), Zé Ramalho é hoje um sujeito preocupado com as “irresponsabilidades dos filhos”.

Por que lançar um disco só de músicas inéditas?
Meu disco de estréia, em 1977, tinha “Chão de Giz”, “Avohai” e “Vila do Sossego”, que viraram sucessos. Quando começo uma carreira assim, tenho que respeitar esse compromisso com a força da criação. Hoje tudo é mais fácil quando você regrava músicas conhecidas. As gravadoras torcem o rosto para um disco de inéditas, mas sabem que há uma geração de compositores que tem de ser respeitada.

Hoje é mais difícil trabalhar?
O sistema está muito mais selvagem. Nos anos 70, havia uma carência de autores na música brasileira. Hoje é essa profusão de jogadas, de gente que vira artista da noite para o dia. O sujeito entra numa Casa dos Artistas e depois de 15 dias sai um artista, com disco, fã-clube.

Acha que se adaptaria se começasse hoje?
Não teria chances hoje, que se exige um padrão de beleza. Você tem que ter corpo bonito, não pode ter barriguinha. Nem eu, nem Fagner, Alceu, teríamos chance, porque somos os antigalãs. O formato da gente é o de compositor nordestino. Se chegássemos hoje, íriamos disputar o espaço com um monte de bonitões aí, que fazem três acordes e impressionam.

Como se mantém ativo?
Procuro ver como passar com meu trabalho diante desses fenômenos. Nesses 27 anos, vi aparecer e desaparecer muitos artistas. Surge o Tiririca com a tal da Clementina, e no outro ano some. Todo mundo quer ter seus 15 minutos de fama, não importa como. As mulheres cada vez mais siliconadas, os homens querem ser altos, têm de usar salto alto se são baixos, botar bunda de borracha atrás se não estão bem equipados. São os recursos que as pessoas usam pra chegar onde querem. Se me revoltar com isso, terei mais dificuldades ainda.

É verdade que você foi garoto de aluguel?
Isso foi na época da ditadura. Os militares estavam atrás dos comunistas e não perturbavam os hippies que queimavam fumo no Pier de Ipanema. Chegamos ao Rio, um bando de cabeludos jagunços do Nordeste metidos a hippie. E, nessa história de queimar fumo, pra conhecer as pessoas, viramos ratos de shows. Havia as groupies, garotas que iam ao show a fim de transar com o artista, ou com os músicos do artista, ou com qualquer aficionado. Nessa seqüência você acaba sorteado. No outro dia dormia num quarto de motel, elas tinham pena da gente e davam um troco pra refeição.

O que mais fez para se virar no Rio?
Já empurrei cadeira de aleijado, bati santinhos em gráfica, mais de mil por dia, e achava divertido, sabia que era passageiro. Dormi na rua o ano de 1976 inteiro. Muitas vezes em frente ao Copacabana Palace. Naquela época dava para dormir ali sem ninguém te assaltar. Os policiais te acordavam. Aí mostrava a identidade e dizia “sou do Nordeste, vim tentar a sorte como artista”. O camarada te olhava e dizia “cuidado, hein, pau-de-arara”, e te deixava.

Está rico hoje?
Tenho um apartamento no Leblon (zona sul do Rio) e uma casa na praia lá no Nordeste, pra passar férias. Já é o suficiente, e tenho que ter dinheiro pra bancar irresponsabilidade dos filhos, que começam a fazer netos aí.

Já é avô?
Tenho dois netos, e sobra pra quem? Pro avô. Disse para o meu filho (João, 22, pai de Joana, de 3 meses. A outra neta é Esther, 3, filha de Maria Maria) que hoje, quando se fala abertamente de sexo, não admito você chegar e dizer que engravidou uma menina por acidente. Não quero ouvir nada disso, porque quando tinha a idade dele fiz tudo o que ele faz hoje e não emprenhei ninguém. Meus filhos são todos feitos de casamentos. Acho que sexo é uma coisa normal. Não é normal você engravidar com 16 anos. Quer ter filho, deixa pra depois dos 30.

Mas não fica o orgulho de avô?
Fica. Mas família é bom pra tirar foto, depois é só problema. Sou aquele avô que tira a foto com o neto e depois diz “toma, que o filho é teu”. Minha filha mais nova (Linda) tem 6 anos. Até os 50 ouvi choro de criança em casa. Não agüento mais. Neto pra passar fim de semana comigo, nem morto.

Como foi seu envolvimento com cocaína?
Vim morar no Rio em 1984, quando acabou meu segundo casamento (com a cantora Amelinha). Naquela época o Cartel de Cáli espalhou a cocaína pelo Rio. Ia às festas e gostava. Só não esperava que o envolvimento fosse tão grande. Fiquei muito preso a isso, a ponto de a qualidade do meu trabalho começar a decair. Ficava horas sem dormir. As gravadoras perceberam que eu não queria mais gravar programas, na televisão não podia estar muito crispado, com o rosto transfigurado. Isso pesou e me deram um tempo. Concluí o último contrato em 1987 e fiquei quatro anos parado. Ficava em casa cheirando direto, eram horas sem dormir, virava noites bebendo, fumando e ouvindo música. Não fazia mais nada. Para muitas pessoas eu já tinha encerrado a carreira.

Como largou a droga?
Cheguei a um ponto que parei e disse “não vim de tão longe pra terminar minha vida desse jeito”. Estava perto do grande abismo, da morte. Podia ter uma síncope cardíaca no meio dessas farras. Continuava a fazer shows, mas eram pelo interior do País, porque estava fora da mídia, sem gravar. Aí vieram duas turnês para os Estados Unidos, em 1990 e 1991. Essas viagens foram importantes porque nesses dois anos comecei a querer desplugar o canal com esse negócio.

Procurou ajuda?
Só você pode te tirar disso, ninguém mais. Você passa por um período doloroso. A abstinência causa uma reação orgânica, aparecem furúnculos na pele. Os anticorpos começam a agir porque o sangue intoxicado de anos não recebe mais a coisa. Fiquei nessa algumas semanas, até que um dia aconteceu de eu acordar sem sentir dores, e pela primeira vez percebi os bem-te-vis do Leblon cantando pela janela. Senti que ali estava resolvida essa história. Nunca mais voltei.

E maconha?
Creio que chegará um futuro em que se desvinculará a maconha da palavra drogas. Maconha é uma erva que pode ser administrada facilmente. Amsterdã, com os cafés que vendem normalmente, prova que as pessoas sabem administrar bem isso. Nada ali se degenerou, não houve podridão na sociedade.

Você fuma para criar?
Sempre que posso. Você aflora sua espiritualidade. Uma substância como o THC te coloca numa espécie de mixagem, onde você consegue discernir as coisas com calma e sem estresse. No processo criativo, o difícil é ter uma fagulha para começar por algum lugar. Você fumando uma coisa vai ter mais calma pra escolher. Claro que cada cabeça é um mundo, mas comigo funciona assim.

Ainda está chateado com Paulo Coelho por ele não ter liberado as músicas para o disco em homenagem a Raul Seixas?
É uma coisa definitiva. Pensei que as pessoas fossem coerentes com aquilo que fazem. Você escreve teu livro falando de amor, bem ao próximo, e pratica o quê? Paulo Coelho faz um trabalho público, as pessoas têm uma imagem dele e o que ele pratica é exatamente o contrário. Outra demonstração de mau-caratismo é liberar uma das músicas que fez com o Raul (“Nasci Há 10 Mil Anos...”) pra novela da Globo (Um Anjo Caiu do Céu) e não para o meu disco. Mas o que passou, passou. Já cumpri minha obrigação com meu amigo Raul.

Que lembranças guarda do relacionamento com Raul Seixas?
A maior delas foi em 1984. Ele tinha brigado com a Kika (viúva de Raul) e passou um fim de semana lá em casa. Conversamos muito, tocamos e fizemos planos de gravar um disco juntos. Numa das manhãs, ele, que batia no meu ombro, pegou umas roupas minhas, foi na farmácia e comprou um tubo de Reativan, aquela bolinha que você toma e fica acordado direto. Me acordou às 7h e queria brindar o Reativan com cuba libre. Acompanhei, porque na época eu estava pegando uma cor no inferno, como se diz.

Acha que Raul foi vítima dessas loucuras?
É o mergulho intenso na vida, como Janis Joplin, Jimi Hendrix. Muitos fãs exigem que o artista se comporte de uma forma tal, mas ninguém pensa que ele pode ter essa opção, “quero ser um camicase”. É triste para uma avaliação social, mas é um direito do artista, porque todas essas pessoas que tiveram esse final sabiam o que estavam fazendo. Sabiam aonde poderiam chegar, até mesmo no ponto extremo que é o de cruzar essa linha, ir para o outro lado.

Luis Edmundo Araújo

http://terra.com.br

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Heroina

A droqa que me domina 

Não é a droga que se vende na esquina
A verdadeira droga de quem sonha
Não é maconha, não é cocaina
O que entorpece, que alucina  
É a verdadiera droga de amor fina  
O que entorpece, enlouquece e domina  
É o brilho contido
Nos olhos da dançarina  
Só sentir seu cheiro já me desatina
Minha heroina, minha heroina
Minha heroina, minha heroina
Estou alucinado por uma menina
Minha heroina, minha heroina
Só sentir seu cheiro já me desatina
Minha heroina, minha heroina
O meu baseado é o amor dessa menina
Você é o meu êxtase
Meu amor próprio
Fina flor do ópio
Para sedução  
Você é meu êxtase  
Meu amor próprio  
Fina flor do ópio
Alucinação
Sou dependente
E ainda acho pouco
Estou ficando louco
Venha me prender
No seu abraço
Está a minha cura
O fim da minha loucura
Começa em você
Minha heroina, minha heroina...
Zé Ramalho

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