sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

O Bicho da Poesia

Para bem ouvir e absorver Zé Ramalho, convém se despir de toda a erudição e deixar o bicho da poesia entrar pelos poros. Sua poesia é pele, é intuição (mais até do que inspiração), eis um bicho-poesia em sua inteireza: nada de bibliotecas submersas, citações vãs, tudo brotando das veias e fertilizando o solo. Para bem ouvir e absorver Zé Ramalho, é preciso se livrar de todos os preconceitos e se deixar afogar no mar da poesia, no charco, no vasto charco da vida real, da máquina de triturar carne e da vida comum. Se poesia é lama, amálgama do suor do rosto caindo no barro do chão, eis o poeta-caranguejo, com suas tenazes e sua solidão. Para bem ouvir e absorver Zé Ramalho, urge-se privar de todos os conceitos, pois sua obra nega quaisquer uns que tenham sido por nós absorvidos e absolvidos. Essa obra musical os condena e os rejeita na sensatez de sua loucura e nas máculas de sua pureza.
Conheci Zé Ramalho nos bailes da vida. Eu, dançando. Ele, tocando. Eu, me tocando. Ele, se dançando. Vi, primeiramente, sua banda roqueira, competente guitarrista cover inigualável dos Ventures, dos Incriveis, insecrutável como Jimy Hendrix, magro com Keith Jarret, mistico como George Harrison, louco como Eric Clapton. Louco, sim. A melhor banda de rock da Paraíba nos anos 60 chamava Os Quatro Loucos. Ele era um dos quatro. Curvado sobre as cordas do instrumento, tomando choque da eletricidade de Paulo Afonso, parecia um centauro sobre a guitarra colorida. Na nossa Liverpool mitica, na Memphis ensolarada de nossos sonhos, ele ajudava a dar ritmo a nossa rebeldia. As cordas de sua guitarra faziam uma ponte entre as praias da Paraíba e o nevoeiro espesso de Londres do Balanço.
Atenção, leitor: não percebi o Rimbaud escondido naquela corcunda. Nem mesmo quando Carlos Aranha, meu amigo velho, me apresentou no Bambu, restaurante da boemia pessoense, perto do Bica, Zoo local. Aquele lá, o violeiro de Alceu Valença, assoando o nariz insistentemente no lenço já empapado de catarro, pareceu-me apenas um bicho da noite, como nossos primos os sagüís que dormiam nos galhos da árvores próximas. Talvez pudéssemos cobrar ingressos das crianças para vê-lo, sentado à mesa como se empunhasse um violão, um animal aparentemente desconfortável em sua própria pele. Não sei por que, mas imaginei, naquele encontro rápido, que ele poderia ter saido diretamente de um conto inédito de Jerome David Salinger, herói da minha adolescência. Ali, associado com Aranha, com quem tinha feito o show Ramaranha, também não liguei nada de sua figura inusitada ao êxito comercial.
Sem contar com a apresentação de Alceu em Olinda no Festival da Globo, só o veria de novo no paloco do Teatro São Pedro, na Barra Funda, na Paulicéia Desvairada, onde eu fazia ninho. Lançava seu primeiro disco, Zé Ramalho. Talvez por associá-lo com o autor de The catcher in the rye, logo pensei que pudesse inclui-lo na ampla herança que Bob Dylan havia deixado pelos continentes. Até hoje, Chão de Giz me dá a sensação de que poderia ter sido composta por Dylan ou por Holden Caufield (lá sei eu, quem sou eu para dominar os mistérios da criação). Levei-o para minha casa e o submeti a uma audição completa do poeta de Like a rolling stone. Ele nunca o tinha ouvido antes. Não me dei por achado, apelidei-o de Zylan, não o filho de Bob, mas seu primo. Quem é que vai entender as encruzilhadas da canção popular?
José Ramalho Neto, paraibano de Brejo do Cruz, no mesmo sertão seco da Paraíba onde fica Uiraúna, onde eu nasci, revelou-me seu diabólico pacto com o Cão.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

1960

Começa a estudar em João Pessoa e ai começa a participar dos "conjuntos de baile" da Jovem Guarda. Suas influências eram:

* Renato Barros
* Lene e Lilian
* Roberto Carlos
* Erasmo Carlos
* Golden Boys
* Beatles
* Rolling Stones
* Pink Floyd
* Bob Dylan

1951


Seu pai morre afogado em um açude, e ai seu avô José Alves Ramalho o pegou para criar, é dai que vem a pronúncia Avôhai (Avô e Pai), o próprio Zé nos fala depois que este nome lhe foi soprado por entidades extra-terrestres ou sensoriais 20 anos depois.
Sua avó Soledade e suas tias Maria Madalena, que também foi sua primeira professora, Inês, Terezinha (Tetê), Zélia e pelo tio Nonato Ramalho.

1949


Na pequena cidade paraibana de Brejo do Cruz nascia a 3 de outubro José Ramalho Neto, filho de Antônio de Pádua Pordeus Ramalho e Estelita Torres Ramalho, ele seresteiro e ela professora.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Ramalheando

Se o povo não clareia
Ramalho faz clarear
Se o dia não clareia
Ramalho faz clarear

Meu boa noite
Hoje a gente comemora
Olha aqui justo na hora certa de comemorar
Uma homenagem do poeta a gente adora
Zé ramalho sim senhora vamos homenagear

Se o povo não clareia ...

Ele é o profeta, brincalhão da paraíba
Sobe abaixo desce arriba
Não tem lógica pra dar
E misturando frevo com mitologia
Canta sem economia
Tem fartura no prosar

Se o povo não clareia ...

Ele é o discípulo de mestre zé limeira
Olha aqui não é brincadeira
Se aprender a improvisar
O zé mistura o absurdo a gemedeira
O avohai com a fumaceira
O oriente e o ceará

Se o povo não clareia ...

Embola bola do passado com presente
No improviso no repente
No cordel vou embolar
Embola bola eu faço verso na viola
Você diz que da na bola, na bola você não dá

Se o povo não clareia ...

E eu garanto se ramalho fosse bola
Bola de bola de gude, colorida de brilhar

Êh... vida de gado, se o dia não clareia ramalho faz clarear...

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

BIOGRAFIA

Em 3 de Outubro de 1949, na pequenina cidade de Brejo do Cruz, no sertão da Paraíba nasceu José Ramalho Neto, filho de Antônio de Pádua Pordeus Ramalho e Estelita Torres Ramalho, ele seresteiro e ela professora.
Morou em Brejo do Cruz até 1951 quando perdeu seu pai, que morreu afogado em um açude, e ai seu avô, José Alves Ramalho o pegou para criar, é dai que vem a pronúncia Avôhai (Avô e Pai), o próprio Zé nos fala que este nome lhe foi soprado por entidades extra-terrestres ou sensoriais 20 anos depois.
Foi criado também por sua avó Soledade e suas tias, Maria Madalena, que foi também sua primeira professora,Inês, Terezinha (Tetê), Zélia e pelo tio Nonato Ramalho.
Seu avô desde cedo o ensinou a amar os bichos e a natureza, a respeitar as pessoas e nunca passar por cima delas em hipótese alguma para poder atingir seu objetivos
Seu avô deu a todas as filhas formação superior e a seu neto lhe possibilitou que estudasse nos melhores colégios. Zé sempre gostou de estudar, e a partir do segundo grau é que começou a ter seus contatos musicais, primeiro com os violeiros da região, e familiarizado com os cordéis ele mesmo passou a compor músicas. E desde cedo ele gostou de literatura greco-romana, dai o fato de suas músicas serem sempre cheias de citações bíblicas e de mitos greco-romanos. Aprendeu com facilidade a escrever em decassílabos, dai começou a compor usando essa forma que é chamada de "Martelo Agalopado" pelos repentistas do Nordeste.
E o sonho de seu avô era que o Zé fosse o médico da familia.
Em meados dos anos 60 vai estudar em João Pessoa e ai começa a participar dos "conjuntos de baile" da Jovem Guarda. Suas influências eram: Renato Barros, Leno e Lilian, Roberto Carlos e Erasmo Carlos e o grupo Golden Boys no Brasil e Beatles, Rolling Stones, Pink Floyd e Bob Dylan do outro lado do Planeta Terra.
Para alegria da familia, principalmente do Avôhai ele entra para a Faculdade de Medicina.
Em 1971 tem seu primeiro envolvimento de vez com as mulheres, seu nome era Ísis, com quem teve seu primeiro filho, Christian Galvão Ramalho (1974). Porém este seu primeiro casamento não deu certo.
E pouco tempo depois ele também largou o seu curso de Medicina na Faculdade, o qual ele não levava jeito nenhum, pois quando via alguém machucado ficava muito nervoso, o que ficava muito difícil para o exercício da Medicina. Fato que magoou bastante o Avôhai, mas o mesmo não interferiu de jeito nenhum na escolha do neto pela carreira musical.
Em 1974 sai da Paraíba rumo à cidade maravilhosa com o intuito de engrenar de vez a sua carreira musical, levando a tiracolo uma seleção de músicas para gravar seu primeiro "acetato de mercúrio"
Lá fazia parte da banda de Alceu Valença também em inicio de carreira, com o show "Vou Danado pra Catende", na banda ele tocava viola, e neste show ele cantava uma composição de sua autoria (Jacarepaguá Blues)
E foi neste período que o Zé teve sua inicialização com as drogas, e em um destes seus shows havia consumido LSD, em sua "viagem" foi para o meio do palco fazer sua apresentação individual, e em vez de cantar a música que estava no roteiro (Jacarepaguá Blues), cantou outra música sua (Vila do Sossego), na hora houve muita confusão, os músicos não entenderam nada do que estava havendo, mas alguns ainda acompanharam e outros sairam do palco, e o público mesmo assim aplaudiu bastante a sua performance, mas só que Alceu Valença não gostou, e os dois discutiram no camarim, e na volta para o palco o Zé quebrou sua viola no palco, no meio do show, só que o público novamente aplaudiu pensando que fazia parte do show, e tal fato resultou no rompimento da parceria dos dois.
E um ano depois o Zé vai ao teatro assistir a outro show do Alceu (Espelho Cristalino), e para surpresa do Zé a primeira música do show é Vila do Sossego, o que lhe emocionou bastante, pois essa música fazia parte do roteiro do show.
Em 1974 Zé lança seu primeiro Disco (Paêbiru) juntamente com Lula Côrtes, Paulo Rafael, Geraldo Azevedo e Alceu Valença pela Gravadora Rozenblit da cidade do Recife com o selo Mocambo, onde toca vários instrumentos, o disco é dividido nos elementos, Água, Terra, Fogo e Ar. Este disco foi gravado em 2 canais e falava na Pedra do Ingá, um rochedo coberto de misteriosas e indecifrada inscrições. Este album nunca foi lançado comercialmente e a grande maioria das cópias foram engolidas pelas águas do Capibaribe na enchente de 1974.
Neste tempo a vida para ele era muito difícil, chegando mesmo a dormir na praça (literalmente) e trabalhava em uma gráfica.
Neste mesmo ano participa da trilha sonora do filme "Nordeste: Cordel, Repente e Canção" da cineasta Tânia Quaresma. A cineasta queria que o Zé fosse o diretor musical do documentário. Ele foi à caça de cantadores e violeiros da região para a escolha do material do filme e com isso acendeu a paixão pelos cantadores nordestinos.
Em 1976 participa de um Disco Compacto Simples (Réquiem para o Circo) onde ele declama um texto. Era com o Grupo Ave Viola do compositor paraibano Dida Fialho.
Em 1977, contatou com o produtor Augusto César Vanucci e este lhe convida a participar da gravação do disco "Dez Anos de Vanusa", onde toca viola na música Avôhai.
E neste mesmo ano ele assina contrato com a CBS e lança o disco com seu nome e o carro chefe deste disco é a música Avôhai que já era sucesso na voz de Vanusa.
Em 1978 ele ganha projeção nacional com o disco "A Peleja do Diabo com o Dono do Céu", onde o carro chefe é a música Admirável Gado Novo. E neste mesmo ano ele conhece Amelinha com quem passa a viver maritalmente e ela grava o sucesso Frevo Mulher, os dois fazem uma turnê para divulgar o trabalho dos dois.
Com Amelinha tem dois filhos João Colares Ramalho e Maria Colares Ramalho.
Em 1980 ele participa do Festival MPB 80 da Rede Globo de Televisão com a música Hino Amizade, esta música fica entre as 20 finalistas e Amelinha fica classificada em 2º lugar com a música Foi Deus quem fez Você, esta música é de autoria de seu primo Luiz Ramalho.
Em 1981 lança o disco "A Terceira Lâmina".
Em 1982 lança o disco "Força Verde", um disco recheado de polêmicas, neste disco foi acusado de plágio do artista irlandês William Yeats. Na música Pepitas de Fogo ele diz que a inspiração veio da capa do disco de Pink Floyd, onde um homem carrega uma mala cheia de figuras, dai os versos "as figuras do mundo vão levar". Em Força Verde, a inspiração veio de uma revista de quadrinhos do "Incrivel Hulk". Alguns versos da música fazem parte da história contada pelos quadrinhos, mas ele nunca ia imaginar que os versos eram do poeta irlandês, fato pelo qual ele não deu créditos. Essa acusação não chegou a ser formal, pois os advogados da revista Marvel Comics se retrataram por não terem dados eles próprios os créditos devidos. A maior acusação veio da midia, neste tempo o apresentador de TV Flávio Cavalcanti, em um dos seus quadros chegou a quebrar o disco do Zé e jogando-o ao lixo disse: "Roubou, tem que pagar."
Mas uma acusação dessas abalou muito a vida e a sua carreira e neste mesmo tempo Amelinha o largou e ai ele se entregou de vez às drogas principalmente à cocaina, e com este vicio ele chegava a compor 3 músicas em seguida com a euforia da droga.
Zé só vai se levantar com a chegada em sua vida de Jorge Mautner, ele chega em seu apartamento e lhe diz que tem uma música que é a sua cara.

"Você é a orguidea negra
que brotou da máquina selvagem
e o anjo do impossivel
plantou como nova paisagem (...)
Parece até a própria tragédia grega
da mais profunda melancolia,
parece a bandeira negra
da loucura e da pirataria."
Logo ele se identifica com a música que foi feita para ele e ai começou o projeto de seu 5º disco que ia levar o nome da música do Jorge Mautner, era "seu quinto mar de sons, sonhos e poemas. O sono acabou".
Neste disco teve as parcerias de Maria Lúcia Godoy, Fágner, Robertinho do Recife, A Cor do Som, Osmar (Trio Dodô e Osmar) e Egberto Gismonti.
Mas apesar destes grandes nomes o disco não teve o sucesso esperado, tanto da critica como do público.
E em 1984 ele veio todo remoçado, mudou de estilo musical e de estilo visual, fez a barba e cortou os cabelos para lançar o disco "Pra não dizer que não Falei de Rock ou... Por aquelas que Foram bem Amadas", neste seu novo trabalho exalta o rock'n'roll anos 60. E novamente o disco não faz sucesso e muitos criticos e o grande público falava que o Zé tinha se rendido ao "sistema", pois diziam que ele tinha feito apenas músicas comerciais, o que de certa forma era mentira pois ele não fez nada disso, que o diga as músicas O Tolo na Colina em parceria com Erasmo Carlos e a música Dogmática que são puro protesto.
E em 1985 lança outro disco com o nome "De Gosto, de Água e de Amigos", que novamente não emplacou. Neste mesmo ano ele fez sucesso com a música Mistérios da Meia-Noite, da trilha sonora da novela da Globo (Roque Santeiro), esta música foi incluida na segunda tiragem do disco e em um LP duplo.
Em 1986 lança o disco "Opus Visionário", que vem recheado de misticismo, bem ao estilo do que conhecemos do Zé.
Em 1987 sai o disco "Décimas de um Cantador", último disco pela CBS, neste disco ele se revela um tanto cansado e o estranho é a capa, ela sai com seu nome como se fosse escrito com cocaina, e ela já amostrava no Zé, foram 6 anos de intenso consumo e ela já havia afetado a mucosa do nariz que sempre sangrava, fora as náuseas que eram constantes.
Até que um dia com o seu canudinho na mão ele lembrou da terrivel sensação que sentiria e concluiu que o êxtase causado por "ela" não valia a pena, e ai ele decidiu dá um basta. Ele não quis se internar em uma clinica de dependentes, e resolveu se tratar em casa mesmo juntamente com sua mulher Roberta, ficou cerca de um mês só tomando remédios e descansando, em sua pele já apareciam algumas feridas que eram conseqüências do sangue intoxicado, este tratamento foi muito doloroso para toda a familia. Neste retorno à vida ele deveu muito à Roberta que lhe deu muito apoio durante todo este periodo de desintoxicação. Roberta chegou em sua vida em 1980, prima de Amelinha e claro sua fã, ele lhe viu pela primeira vez em seu camarim logo após um show e logo ele a convida para conhecer a "cidade maravilhosa".
Quando Roberta Fontenele Ramalho entra de vez para a vida dele ela assume o posto de empresária do marido.
E o primeiro filho vem no ano de 1992 (José Fontenele Ramalho) e em 1995 vem ao mundo (Linda Fontenele Ramalho).
A caçula da familia segundo os médicos deveria ficar em uma incubadora, mas ao ouvir a voz de seu pai ela abriu imediatamente os olhos e lhe mostrou que já estava pronta para a batalha pela vida. Zé sempre diz que a "voz das trevas" como era conhecida sua voz na verdade trouxera luz à sua Linda.
E em 1990 já de casa nova (Sony) lança o disco "Brasil Nordeste" onde ele canta forró, este disco faz parte da série Academia Brasileira da Música.
Em 1992 volta a ter projeção nacional com a novela "Pedra sobre Pedra" da Rede Globo, foi convidado pela emissora para gravar um tema especialmente para esta novela, "Entre a Serpente e a Estrela" versão Aldir Blanc, esta música é um dos seus hits até hoje apesar de não ser de sua autoria, esta música foi incluída depois em seu disco Frevoador.


segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

FREVO MULHER

Quantos aqui ouvem os olhos eram de fé!
Quantos elementos amam aquela mulher...
Quantos homens eram inverno outros verão...
Outonos caindo secos no solo da minha mão!

Gemeram entre cabeças a ponta do esporão
A folha do não-me-toque
E o medo da solidão
Veneno, meu companheiro
Desata no cantador
E desemboca no primeiro açude do meu amor

É quando o tempo sacode a cabeleira
A trança toda vermelha
Um olho cego vagueia
Procurando por um!

JARDIM DAS ACÁCIAS

Nada vejo por essa cidade
Que não passe de um lugar comum
Mas o solo é de fertilidade
No jardim dos animais em jejum
Esperando alvorecer de novo
Esperando anoitecer pra ver
A clareza da oitava estrela
Esperando a madrugada vir
E eu não posso com a mão retê-la
E eu não passo de um rapaz comum
Como e corro, trafego na rua
Fui graveto no bico do anum
Vez em quando sou dragão da lua
Momentâneo alienígena
A formiga em viva carne crua
Perecendo e naufragando no mar!

A papoula da Terra do Fogo
Sanguessuga sedenta de calor
Desemboco o canto nesse jogo
Como a cobra se contorce de dor
Renegando a honra da família
Venerando todo ser criador
No avesso de um espelho claro
No chicote da barriga do boi
No mugido de uma vaca mansa
Foragido como Judas em paz
A pessoa que você mais ama
No planeta vendo o mundo girar

MOTE DAS AMPLIDÕES

Montado no meu cavalo
Pégaso me leve além
Daquilo que me convém
Relançar pelo que falo
Bebendo pelo gargalo
Enchentes e ribeirões
Na terra tem mil vulcões
No tempo só tem espaço
Nada digo e tudo faço
Viajo nas amplidões

Por entre pedras e rios
Planetas e hemisférios
Há poderes e impérios
Há sérios homens e fios
Há beijos que são macios
Há bocas e palavrões
Há facas e cinturões
Há dor e muito cansaço
Nada digo e tudo faço
Viajo nas amplidões

Bem no tempo do estio
No inverno e no verão
No eixo e na rotação
No plano que lhe envio
Nos deuses em quem confio
No poder das orações
No sangue desses canhões
No cabelo e no cangaço
Nada digo e tudo faço
Viajo nas amplidões

Conheço tantos caminhos
Retenho preso na mão
As chaves da viração
Das aves que não têm ninhos
Das uvas que não dão vinhos
Dos erros das intenções
Do fogo desses dragões
Do pau, do ferro e do aço
Nada digo e tudo faço
Viajo nas amplidões

PELO VINHO E PELO PÃO

Quantos olhos você tem pra me falar
Quantas bocas você diz a me olhar
Quantos dentes eram tristes
Quantos eram solidão
Outros eram diferentes
Não nasceram para o chão
Claros pêlos evidentes
Nascerão em cada mão
Lívidos e conscientes
Pelo vinho e pelo pão
Beijos de doce veneno
Quero sim e quero não
Pelo fogo dos repentes
Desafio o coração

GAROTO DE ALUGUEL

Baby!
Dê-me seu dinheiro que eu quero viver
Dê-me seu relógio que eu quero saber
Quanto tempo falta para lhe esquecer
Quanto vale um homem para amar você
Minha profissão é suja e vulgar
Quero um pagamento para me deitar
Junto com você estrangular meu riso
Dê-me seu amor que dele não preciso!

Baby!
Nossa relação acaba-se assim
Como um caramelo que chegasse ao fim
Na boca vermelha de uma dama louca
Pague meu dinheiro e vista sua roupa
Deixe a porta aberta quando for saindo
Você vai chorando e eu fico sorrindo
Conte pras amigas que tudo foi mal
Nada me preocupa; de um marginal!

BEIRA-MAR

Eu entendo a noite como um oceano
Que banha de sombras o mundo de sol
Aurora que luta por um arrebol
De cores vibrantes e ar soberano
Um olho que mira nunca o engano
Durante o instante que vou contemplar
Além, muito além, onde quero chegar
Caindo a noite me lanço no mundo
Além do limite do vale profundo
Que sempre começa na beira do mar

Por dentro das águas há quadros e sonhos
E coisas que sonham o mundo dos vivos
Peixes milagrosos, insetos nocivos
Paisagens abertas, desertos medonhos
Léguas cansativas, caminhos tristonhos
Que fazem o homem se desenganar
Há peixes que lutam para se salvar
Daqueles que caçam em mar revoltoso
Outros que devoram com gênio assombroso
As vidas que caem na beira do mar

Até que a morte eu sinta chegando
Prossigo cantando, beijando o espaço
Além do cabelo que desembaraço
Invoco as águas a vir inundando
Pessoas e coisas que vão arrastando
Do meu pensamento já podem lavar
No peixe de asas eu quero voar
Sair do oceano de tez poluída
Cantar um galope fechando a ferida
Que só cicatriza na beira-do-mar

FALAS DO POVO

Falo da vida do povo
Nada de velho ou de novo

Em velhas mansardas, mansões e motéis
Os homens planejam os seus carretéis
Novelos e linhas, labirintos e ruas
As mulheres e luas são pedaços da noite

Vizinhos avisam, prezam seus anéis
O custo da vida, um conto de réis
Apitos de fábrica ressoaram de novo
Alegria do povo é sambar e sonhar

Falo da vida do povo
Nada de velho ou de novo

Em feiras distantes, romeiros fiéis
Desfiam seu canto, velhos menestréis
Pelejas e lutas, esperanças de novo
Ninguém pede socorro nem se afoga no mar

Mendigos e risos, os ferrões do amor
Novamente os risos, os leões, domador
Acertaram no alvo, acertaram no negro
Descobrir o segredo de sorrir e chorar.

ADMIRÁVEL GADO NOVO

Vocês que fazem parte dessa massa
Que passa nos projetos do futuro
É duro tanto ter que caminhar
E dar muito mais do que receber
E ter que demonstrar sua coragem
À margem do que possa parecer
E ver que toda essa engrenagem
Já sente a ferrugem lhe comer
Êh, oô, vida de gado
Povo marcado
Êh, povo feliz!

Lá fora faz um tempo confortável
A vigilância cuida do normal
Os automóveis ouvem a notícia
Os homens a publicam no jornal
E correm através da madrugada
A única velhice que chegou
Demoram-se na beira da estrada
E passam a contar o que sobrou!
Êh, oô, vida de gado
Povo marcado
Êh, povo feliz!

O povo foge da ignorância
Apesar de viver tão perto dela
E sonham com melhores tempos idos
Contemplam esta vida numa cela
Esperam nova possibilidade
De verem esse mundo se acabar
A arca de Noé, o dirigível,
Não voam, nem se pode flutuar
Êh, oô, vida de gado
Povo marcado
Êh, povo feliz!

A PELEJA DO DIABO COM O DONO DO CÉU

Com tanto dinheiro girando no mundo
Quem tem pede muito, quem não tem pede mais
Cobiçam a terra e toda a riqueza
Do reino dos homens e dos animais
Cobiçam até a planície dos sonhos
Lugares eternos para descansar
A terra do verde que foi prometido
Até que se canse de tanto esperar
Que eu não vim de longe para me enganar!
Que eu não vim de longe para me enganar!

O tempo do homem, a mulher, o filho,
O gado novilho urra no curral
Vaqueiros que tangem a humanidade
Em cada cidade e em cada capital
Em cada pessoa de procedimento
Em cada lamento palavras de sal
A nau que flutua no leito do rio
Conduz à velhice, conduz à moral
Assim como Deus, parabéns ao mal!
Assim como Deus, parabéns ao mal!

Já que tudo depende da boa vontade
É de caridade que eu quero falar
Daquela esmola da cuia tremendo
Ou mato ou me rendo, é a lei natural
Num muro de cal espirrado de sangue
De lama, de mangue, de rouge e batom
O tom da conversa que ouço me criva
De setas e facas e favos de mel
É a peleja do Diabo com o Dono do Céu!
É a peleja do Diabo com o Dono do Céu!

VOA, VOA

Voa, voa, voa
Para bem longe nos olhos do meu amor

Quem me quiser querendo
Vai ter que clarear
A noite todo dia
Para que a melodia da melancolia vá lhe aperrear

Voa, voa, voa
Para bem longe nos olhos do meu amor

É quando a boca bebe o líquido do mar
E fica embriagada, toda abandonada
Como se calada, rouca de falar

MENINAS DE ALBARÃ

Levantam-se bem cedo as meninas
E banham-se no lago de Albarã
Reflete nas bandejas cristalinas
O rosto enrugado da manhã
Um terço da população da terra
Um resto de comida que sobrou
Um preso que fugiu de madrugada
As balas que perseguem o meu amor

De noite acendo a tocha do meu olho
Farol do Cabo-Branco secular
Desato as correntes do meu grito
E falo dos mistérios desse mar
Escuto a gargalhada de Netuno
Que no Atlântico me abrigou
A correnteza louca dessa vida
Me arrasta para bem longe do meu amor
Me arrasta para bem longe do meu amor

ADEUS SEGUNDA-FEIRA CINZENTA

Cachorro latindo, chorando sem pai
O tempo mentindo que o vento do norte não sabe soprar
O mar se levanta com tal desespero
Que eu penso que a terra não sente a cratera querendo lavar
Levar a cabeça pro fundo do mar
E ver que essa areia de grãos tão pequenos é chão de um país
Que foi que eu fiz pra não merecer
Um beijo mais quente que a boca do povo viria dizer?
Dizer que me amas, que és meu amor
Mas onde procuro a cor desse olho é denso negror
É como o bafejo da Hidra de Sal
Dragões do meu sono, que rasgam anúncios na televisão!

Eu tenho um espelho cristalino
Que uma baiana me mandou de Maceió
Ele tem uma luz que alumia
Ao meio-dia reflete a luz do sol

A DANÇA DAS BORBOLETAS

As borboletas estão voando
A dança louca das borboletas
Quem vai voar não quer dançar
Só quer voar
Avoar!

As borboletas estão girando
Estão virando a sua cabeça
Quem vai girar não quer cair
Só quer girar… Não caia!

As borboletas estão invadindo
Os apartamentos, cinemas e bares
Esgotos e rios e lagos e mares
Em um rodopio de arrepiar

Derrubam janelas e portas de vidro
Escadas rolantes e nas chaminés
Se sentam e pousam em meio à fumaça
De um arco-íris se sabe o que é....
Se sabe o que é.... se sabe o que é!

A NOITE PRETA

E nesse ano a noite preta pega a porta
E arremessa contra a massa da parede
A ventania, canto, faca, tudo corta
A sombra torta estranha como a rede

Cabeça cheia como um saco de confetes
Pende dos ombros com serpentes e cabelos
E essa louca cobra, loura reluzente
Se enrosca no tronco do cotovelo

E refletidas no cubículo calado
Pulsam dilatam-se cadeiras que se movem
Brilham os ratos e bordados nos sapatos
Brilham insetos alimentando sapos

CHÃO DE GIZ

Eu desço dessa solidão
Espalho coisas sobre um chão de giz
Ah, meros devaneios tolos a me torturar!
Fotografias recortadas em jornais de folhas, amiúde…
Eu vou te guardar num pano de jogar confetes
Eu vou te jogar num pano de guardar confetes

Disparo balas de canhão
É inútil pois existe um grão-vizir
Há tantas violetas velhas sem um colibri
Queria usar, quem sabe, uma camisa de força ou de vênus
Mas não vou gozar de nós apenas um cigarro
Nem vou lhe beijar, gastando assim o meu batom

Agora pego um caminhão, na lona vou a nocaute outra vez
Pra sempre fui acorrentado no seu calcanhar
Meus vinte anos de boy, that’s over baby! Freud explica
Não vou me sujar fumando apenas um cigarro
Nem vou lhe beijar gastando assim o meu batom
Quanto ao pano dos confetes, já passou meu carnaval
E isso explica por que o sexo é assunto popular.
No mais estou indo embora, no mais estou indo embora
No mais

VILA DO SOSSEGO

Oh, eu não sei se eram os antigos que diziam
Eu seus papiros Papillon já me dizia
Que nas torturas toda carne se trai
E normalmente, comumente, fatalmente, felizmente
Displicentemente o nervo se contrai
Ô, ô, ô, ô, com precisão!

Nos aviões que vomitavam pára-quedas
Nas casamatas, casas vivas caso morras
E nos delírios, meus grilos temer
O casamento, o rompimento, o sacramento, o documento
Como um passatempo quero mais te ver
Ô, ô, ô, ô, com aflição!

Meu treponema não é pálido nem viscoso
Os meus gametas se agrupam no meu som
E as querubinas meninas rever
Um compromisso submisso, rebuliço no cortiço
Chame o Padre Ciço para me benzer
Ô, ô, ô, ô, com devoção!

AVÔHAI

Um velho cruza a soleira
De botas longas, de barbas longas, de ouro o brilho do seu colar
Na laje fria onde coarava sua camisa e seu alforje de caçador
Oh meu velho e invisível Avôhai
Oh meu velho e indivisível Avôhai
Neblina turva e brilhante em meu cérebro, coágulos de sol
Amanita matutina e que transparente cortina ao meu redor
Se eu disser que é meio sabido você diz que é meio pior
É pior do que planeta quando perde o girassol
É o terço de brilhante nos dedos de minha avó
E nunca mais eu tive medo da porteira
Nem também da companheira que nunca dormia só, Avôhai

O brejo cruza a poeira
De fato existe um tom mais leve na palidez desse pessoal
Pares de olhos tão profundos que amargam as pessoas que fitar
Mas que bebem sua vida sua alma na altura que mandar
São os olhos, são as asas, cabelos de Avôhai
Na pedra de turmalina e no terreiro da usina eu me criei
Voava de madrugada e na cratera condenada eu me calei
Se eu calei foi de tristeza, você cala por calar
E calado vai ficando só fala quando eu mandar
Rebuscando a consciência com medo de viajar
Até o meio da cabeça do cometa
Girando a carrapeta no jogo de improvisar
Entrecortando eu sigo dentro a linha reta
Eu tenho a palavra certa pra doutor não reclamar
Avôhai, Avôhai, Avôhai

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