segunda-feira, 26 de julho de 2010

10 Anos do Disco Nação Nordestina


Há dez anos Zé Ramalho lançava um de seus álbuns mais importantes, ou o mais importante, como cita Assis Ângelo no encarte do CD. O álbum, conceitual, já entrega essa grandiloqüência em seu projeto visual: a capa é uma homenagem ao clássico “Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band”, com os ícones nordestinos de todos os tempos posando ao lado de Zé Ramalho; o projeto gráfico inclui um generoso libreto com as letras e a sinopse de cada faixa do álbum duplo.
A idéia de criar um álbum que mostrasse ao Brasil a cara do Nordeste, não só colocando o dedo na ferida, mas também apresentando a riqueza cultural de canções de autores conhecidos do grande Brasil, em conjunção com outros quase anônimos, além do próprio Zé Ramalho, que contribui com seis músicas inéditas suas, dentre as vinte do álbum. Algo que faz “Nação Nordestina” tão especial é o conceito do álbum, baseado nas desventuras de um viajante percorrendo o nordeste do Brasil. As canções vão se encaixando em um mosaico de teor político, que é endossado pelos canhões das tropas em “Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores”, regravação de Geraldo Vandré, aqui recheada de efeitos que a torna uma das melhores gravações já feitas da música. A política está em outros momentos do álbum como em “O Meu País”, onde, sem mais delongas, Zé vai direto ao assunto, apontando o dedo, mas de “bico calado”, as desigualdades do país. Ou ainda em “Ele Disse”, que ganha ainda o discurso do presidente Getúlio Vargas, realizado no dia do trabalhador em 1951. O sertanejo que caminha ao longo do Nordeste também retrata os seus costumes em vários momentos como na regravação de “Lamento Sertanejo”, de Gilberto Gil e Dominguinhos, que ganha o reforço do próprio herdeiro musical de Luiz Gonzaga, e da Guitarra de Robertinho do Recife, que é o produtor do álbum. Os contrapontos também ilustram a obra de Zé Ramalho, às vezes até em sequência, que é o caso das faixas “Temporal” e “Seres Alados”. Se na primeira o viajante entrega que “quem cala, consente a fala”, na segunda a indignação toma conta e manda “Não mais estaremos calados”, contando com o fim da submissão dos gritos do capitão da canção anterior. No fim do primeiro disco, Zé Ramalho faz uma espécie de duelo de irônicas perguntas e respostas com o povo na canção “Mourão Voltado Em Questões”, novamente com contexto político, dessa vez corroborado pelo povo que segue o sertanejo ao longo dessa caminhada proposta no disco. Já o disco 2 é menos político, recheado de participações especiais, é muito mais devotado ao ritmo nordestino, como entrega a primeira faixa “Violando com Hermeto”, uma canção instrumental onde Zé Ramalho e Naná Vasconcelos duelam com Hermeto Pascoal. O trem da canção, criado por Naná, abre espaço para o êxodo em “Hino Nordestino” como entrega a letra da canção “...tentar a sorte no Rio de Janeiro, São Paulo, no mundo aceito o desafio...”. Em “Bandeira Desfraldada”, temos uma interessante fusão de uma cítara brilhantemente nordestina, tocada por Robertinho do Recife, que ganha o reforço da Elba Ramalho, inspiradora da canção gravada originalmente em 1978. O êxodo continua a ser retratado no álbum através da regravação de “Pau-de-Arara” do mestre Luiz Gonzaga, aqui com uma riqueza musical incrível, capitaneada por uma verdadeira seleção de músicos. “Amar Quem Já Amei”, transcrita aqui como forró com a participação de Ivete Sangalo, traduz os maiores medos dos retirantes como o fracasso da volta sem êxito à terra natal. Por vezes as tristes letras, principalmente no reflexivo segundo disco, são eclipsadas por ritmos alegres, como pode ser percebido em “Garrote Ferido”, com as marcantes participações de Fagner, Pepeu Gomes e a percussão de Mingo Araújo. A saudade da terra querida, porém é doída e aqui é validada pela canção “Paraí-ba”, com melancólico vocal de Flávio José e brilhante arranjo de Zé Ramalho. “Eu Vou Pra Lua”, divertido forró gravado originalmente em 1960, nove anos antes de o homem pisar na lua, traz, nessa nova versão, a participação do grupo pernambucano Cascabulho, na última participação especial do álbum. A tensa e apocalíptica “Esses Discos Voadores Me Preocupam Demais”, recheada de efeitos especiais, apresenta a curiosidade e discussões sobre a existência ou não de vida fora da Terra. Apesar de muito bacana, esta é a única canção que talvez fuja um pouco da temática principal, presente em todo o álbum. Com “Digitado Em Poesia”, o viajante que percorre o sertão apontando as mazelas, medos e esperanças da nação nordestina, chega ao final da caminhada, sabendo que chamou a atenção, fez barulho, e principalmente, mostrou a beleza de sua cultura e o talento de seu povo. Zé Ramalho construiu uma obra singular, que merece estar sempre disponível através de disco, para ser ouvida, estudada e compreendida pelas próximas gerações. “Nação Nordestina” é mais que um disco, é um invólucro munido de história e literatura, cantada e tocada. Como em seus últimos álbuns Zé Ramalho prestou homenagem aos seus ídolos Raul Seixas, Bob Dylan e Jackson do Pandeiro, seria uma boa se ele resolvesse prestar um tributo a si mesmo. Certamente consistiria em uma grande idéia se o projeto “Nação Nordestina” ganhasse edição comemorativa com versão em vinil (já pensou a maravilhosa capa do CD em tamanho de LP?), álbum ao vivo, e DVD com a releitura na íntegra desse álbum. Não custa nada sonhar, não é mesmo?

Fonte:
Galeria Musical
Anderson Nascimento

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Entrevista

Desde o início da década passada, Zé Ramalho tem lançado songbooks em homenagem aos artistas que mais o influenciaram. Em 2001, o cantor paraibano gravou um CD dedicado a Raul Seixas pela BMG. Sete anos depois, o homenageado foi Bob Dylan, em Tá Tudo Mudado (EMI). No ano passado, Zé firmou uma parceria com o selo Discobertas, de Marcelo Fróes, e soltou um CD que reunia interpretações suas para as músicas de Luiz Gonzaga.
Nesse ano, foi a vez de Jackson do Pandeiro ser o homenageado. Produzido também em parceria com o selo Discobertas, o projeto destaca-se por não conter apenas releituras, mas também seis músicas inéditas. “Consegui a liberação para gravá-las porque Zé Gomes, um dos meus músicos, é sobrinho do Jackson e guardião legal de sua obra. Foi ele que me passou essas gravações raras, das quais destaca-se Lá Vem a Boiada”, explica. Abaixo, Zé Ramalho comenta esse novo disco e outros temas relacionados à sua carreira.

Helder Maldonado – Você já gravou disco em homenagem a Raul Seixas, Bob Dylan e Luiz Gonzaga. Agora é a vez de Jackson do Pandeiro. Porque tem preferido elaborar songbooks em vez de lançar discos inéditos?

Zé Ramalho – Não há uma razão específica para justificar. É uma fase da minha discografia, em que estou demonstrando habilidade como intérprete e arranjador, produtor e diretor musical. São discos preciosos para as gerações futuras e obviamente que deverei voltar à linha de gravar trabalhos inéditos. Isso ocorrerá em dois ou três anos no máximo.

HM – Existem outros artistas que você pretende homenagear no futuro?

ZR – Sim. Provavelmente o próximo CD da coleção Zé Ramalho canta… será em homenagem aos Beatles, que, assim como os outros já gravados, foi de grande influência para mim.

HM – Como você teve acesso às músicas raras contidas no disco?

ZR - Um dos meus músicos, o Zé Gomes, é sobrinho do Jackson do Pandeiro e tambem cultor (guardião legal) da obra do Jackson, tendo o poder de autorizar gravações ou não. Foi ele quem me passou algumas gravações raras do tio, tiradas do acervo que ele guarda com carinho. La vai a Boiada é uma das mais preciosas.

HM – Seu novo show será baseado apenas no repertório desse disco?

ZR – Não, isso jamais seria possível, pois o público não aceitaria. Todos querem ouvir os grandes sucessos da minha carreira em todos os shows. Ano a ano eu mudo metade ou 1/3 do repertório, mas há um bloco de músicas que não podem faltar como: “Admirável Gado Novo”, “Avôhai”, “Vila do Sossego”, “Chão de Giz”, “Eternas Ondas”, “Frevo Mulher”, entre outras.

HM – Pretende apresentar um show com o repertório repleto de versões para Bob Dylan, Raul, Gonzação e Jackson?

ZR – Isso também não é possível. Não dá para misturar tudo num caldeirão só. São coisas diferentes, as quais já apresentei: um show só para Raul e um show só para Bob Dylan. Se eu fizesse isso, seriam várias horas de show e nao é assim que se faz.

HM – Resgatando o cancioneiro de Jackson – um artista pouco lembrado no sul e no sudeste – você garante que certas pessoas tenham interesse em procurar a obra do cantor. Porém, você concorda que seria também interessante que as gravadoras reeditassem discos dele e os meios de comunicação também prestassem tributos a esse grande expoente da música nacional?

ZR – Isso seria de bom êxito. Porém, não vejo mais possibilidades de as gravadoras relançarem tais obras. Porque elas mesmas não dispõem desse precioso arquivo. Agora, quanto aos meios de comunicação, digo para você mesmo, que está fazendo a pergunta: o que você fará para executar sua própria ideia?

HM – Zé, você lança discos com uma frequência superior a de muitos artistas contemporâneos. Mesmo na época de crise, você aposta no formato físico. Faz por vontade própria ou por uma certa urgência de mostrar material novo e diversificado em um mercado tão competitivo como o atual?

ZR – Faço com este ritmo intenso devido à minha paixão pela música. É por ter condições, conhecimento e maturidade para realizar anualmente tais trabalhos. E nunca vou parar. Mesmo que não existam mais gravadoras, estarei sempre dando um jeito de estar no mercado.

HM – Zé, liste seus maiores erros, acertos e excessos na vida e carreira.

ZR – Não vou responder isso. Isso é asunto para outra entrevista, com várias páginas.

HM – Qual a importância de seu relacionamento profissional com Marcelo Fróes?

ZR – A importância é a produção musical-cultural que realizamos com seriedade e amizade também. Tudo que fazemos é debatido, conversado e estudado. E com ele realizo projetos que, com certeza, com as últimas gravadoras que ainda resistem, não seriam possíveis de serem feitos.

HM – Você ainda acompanha mitologia grega, revista em quadrinhos e ufologia?

ZR – Só a ufologia permanence na minha proposta para desenvolver a curiosidade pessoal. Porque a ufologia não é uma história do passado. É o presente e o futuro, decorrendo ao nosso lado. Isto é: ao lado da realidade diária, está essa outra realidade ufológica, que assusta, é invisível para a maioria, mas está presente lado a lado na nossa vida, no nosso planeta.

HM – O documentário “Zé Ramalho – O Herdeiro do Avohai” teve um resultado que te agradou?

ZR – Sim. É um documentário precioso e cuidadoso, realizado por um cineasta e jornalista paraibano que se dedicou a realizar tal trabalho com paciência e objetividade. Por ter sido feito na Paraíba, tem mais valor ainda e contém imagens e relatos preciosos ditados por mim mesmo.

HM – Existe a possibilidade de ser lançada uma biografia sobre sua vida também?

ZR – Quem sabe? Existem alguns livros que, se não são biográficos, já contam parte da minha vida. Quem quiser saber quais são estes livros, visite o meu site (www.zeramalho.com) na seção livros.

HM – Nunca te passou pela cabeça escrever um livro de memórias ou de crônicas?

ZR – Já passou, sim, e isso poderá ser realizado num futuro próximo. O ghost writer é que terá que aparecer para me ajudar nessas lembranças e narrativas.

Helder Maldonado

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Forró Para Dar e Vender

A produção fonográfica de época não deixa dúvidas: São João chegou. Alguns artistas não precisam necessariamente da data para cantar. Mas aproveitam a festa para vender produtos especiais. É o caso de Zé Ramalho, que regrava Jackson do Pandeiro num álbum que passa longe dos típicos CDs tributo.



Ou seja, produzido com esmero nos arranjos, interpretações e participações. Tanto que faz o registro parecer seu mais novo disco de carreira. O pernambucano Ed Carlos vai no mesmo caminho, reproduzindo o maior nome do cancioneiro nordestino, Gonzagão, num álbum que foi lançado em 2008, mas que ele reedita agora. O balaio do forró é grande e também abriga artistas que lançam disco apenas para dizer que estão na ativa, com seus respectivos shows. Esses discos não são comerciais. São confeccionados em embalagem simples e vendidos apenas durante os shows. É o caso de Novinho da Paraíba e Forró Culé de Xá, comentados também nessa página.

Zé e Jackson - Zé Ramalho canta Jackson do Pandeiro deixando a impressão de que mais ninguém o faria com tanta personalidade. É uma tentação para qualquer cantor chegar perto do que fazia Jackson, sublinhando suas divisões e sincopados marcantes. Zé tem sua própria marca vocal e não precisa tomar emprestado os recursos do outro. Canta à sua maneira clássicos do forró sambado de Jackson, a exemplo de Forró na gafieira, o Canto da Ema, além de um medley com Sebastiana, Um a um e Chiclete com banana. Zé se permite, inclusive, em Chiclete com banana, fazer as mesmas estripulias vocais, numa versão que acaba num samba danado, com pandeiro e a sanfona de Waldonys, produtor da faixa. Metade do repertório do CD (o disco tem 12 faixas) é inédita na voz de Zé. A outra metade foi retirada de fonogramas de discos anteriores.

Dirigido pelo jornalista Marcelo Fróes, dono do selo Discobertas, as músicas trazem arranjos bem diferentes do original, o que as aproxima do universo de Zé Ramalho, que considera Jakson a "segunda coluna do templo da música nordestina". Sendo o primeiro, claro, Luiz Gonzaga. O álbum, segundo Zé Ramalho, "orgulha pelo conteúdo e fé". De fato, além das canções mais conhecidas e animadas de Jackson do Pandeiro, o tributo resgata músicas lentas e contundentes, que Jackson assinou com parceiros.

Entre essas últimas, Lamento cego (com Nivaldo Lima), que abre o CD, e a cantoria Ele disse (de Edgard Ferreira, gravada por Jackson), que traz trecho de um pronunciamento de Getúlio Vargas, de 1º de maio de 1951. Há também as canções mais conhecidas do cancioneiro de Jackson, que Zé reiventa. Entre elas, a Cantiga do sapo e Casaca de couro, com a sanfona de Sivuca. Um luxo só.

Quadro-negro, outro grande sucesso, tem andamento mais lento, assim como o forró Cabeça feita. Se uma das maiores heranças de Jackosn foi justamente seu modo de cantar diferenciado, sendo ele interpretado por Zé Ramalho (outra "grife" vocal), o grande mérito da obra só adquire mais valor.

sábado, 29 de maio de 2010

sexta-feira, 21 de maio de 2010

terça-feira, 18 de maio de 2010

Zé Fala do Disco em Homenagem à Jackson do Pandeiro

Quem nasceu no Nordeste cresceu ouvindo Jackson e outros nomes do forró, que tocava muito nas rádios da região. Qual a lembrança mais antiga que você tem de Jackson, de uma música dele?

ZÉ RAMALHO – No final da década de 50, a partir dos meus dez anos de idade, morava em Campina Grande e, nesse tempo, Jackson tocava muito no rádio. E, provavelmente, uma das músicas mais executadas em rádio AM era Sebastiana. Havia também algumas marchas de Carnaval que Jackson gravava, nesse tempo.

E a influência de Jackson em sua música. Ela está presente onde? No ritmo, na abertura para cantar todos os gêneros e usar todos os instrumentos?

ZÉ RAMALHO – Primeiro, na contagiante alegria que ele me passa quando escuto seus discos. E o mais importante dado que me passou foi o senso de divisão do seu canto. Domínio total dos compassos e pausas, brincando como um moleque dentro da melodia e das palavras. Um mestre que, cada vez mais, depois da sua prematura morte, é reverenciado por toda a comunidade da MPB.

Na época em que você tocava com Alceu chegou a fazer shows com Jackson? Como era a relação entre ele e vocês, todo mundo na época meio hippie, cabeludos e tal?

ZÉ RAMALHO – Alceu fez um Projeto Pixinguinha com Jackson do Pandeiro. Eu já não tocava mais na sua banda, mas tive oportunidade, aqui no Rio de Janeiro, de participar de um show no Teatro João Caetano, onde Jackson estava entre nós, cabeludos hippies. Eu, Fagner e Moraes Moreira. E também estive com ele nos camarins dos shows da vida.

Uma influência obviamente forte em sua carreira vem da cantoria de viola, mas isso começou depois do filme de Tânia Quaresma, Nordeste: cordel, repente, canção, em que você trabalhou com Lula Cortês, ou já a trazia de antes?

ZÉ RAMALHO – O filme da Tânia Quaresma não tem absolutamente nenhuma presença de Lula Cortês. Eu fui o rastreador e diretor musical em algumas gravações, que foram feitas pelos sertões nordestinos. E a ligação com a cantoria já havia em mim, por isso mesmo que fui solicitado pela diretora Tânia Quaresma para fazer parte da equipe de gravação do filme. (Nota: na faixa 4, do LP 1, da trilha sonora do documentário, Zé Ramalho e Lula Cortês cantam Martelo alagoano, atribuída a Zé Limeira).

E Jackson realmente criou toda uma escola de cantar, em gente como Jacinto Silva, Oswaldo Oliveira, Joci Batista, Silvério Pessoa, Gilberto Gil. Você concorda que as três mais importantes vozes-guia da MPB foram Orlando Silva, Jackson do Pandeiro e João Gilberto?

ZÉ RAMALHO – Concordo, mas tem que ser colocada mais uma voz: a do mestre Luiz Gonzaga, que está na mesma altura dos nomes que você citou.

No release do disco, você cita Jackson como uma das duas pilastras que seguram a música nordestina. Apesar disto, praticamente toda a discografia dele está fora de catálogo. Como você explicaria isso?

ZÉ RAMALHO – Bem, em se tratando de músicas de raiz, como é o caso do Jackson, não há nenhum interesse em relançar a discografia dele, que é muito extensa, em formato CD. Quem tem os discos originais em vinil está com o tesouro, muito embora várias edições originais tenham sido formatadas em CD e postas à venda. Pena que não existam mais gravadoras e os acervos que elas continham foram para o beleléu.

O repertório de Jackson do Pandeiro é caudaloso. Qual critério para escolher as quatro músicas gravadas especificamente para esse projeto?

ZÉ RAMALHO – O primeiro critério é o sentimento que essas canções, que eu regravei, me passaram. Por exemplo, a música que abre o disco, Lamento cego, é uma recordação que ele teve das feiras nordestinas e dos cegos, mendigos e pedintes que existiam nesses eventos. É um sentimento puro, que eu senti cantando tal lamento. Assim como a música Lá vai a boiada também contém um sentimento triste, pois fala da paisagem, também muito triste, da seca nordestina. Além de Quadro negro, que mostra a sagacidade e a malícia inteligente e perspicaz, que expõe a letra. Nesse caso, uma alegria e mais uma molecada do Jackson.

Você, no passado, gravou um disco com músicas gravadas por Luiz Gonzaga, que foi o seu show de São João. Este de Jackson seria seu disco junino?

ZÉ RAMALHO –
Não faz assim tanto tempo que eu lancei Zé Ramalho canta Luiz Gonzaga. Pode ser considerado um disco junino, mas ao mesmo tempo, ele é solto, independe da estação sazonal. Poderá ser ouvido a qualquer dia e a qualquer hora.

Você é presença garantida nas maiores festas de São João do Nordeste, porém o forró autêntico vem sendo, digamos acuado, pelas bandas que se dizem de forró, mas que chamo de fuleiragem music. Como você vê o sucesso destes grupos, produzidos por grandes empresários?

ZÉ RAMALHO –
O sucesso desses grupos não pode ser questionado como fuleiragem, porque não acho que sejam. Fazem um formato diferente do ritmo que se chama de forró, revestido de luxo, sensualidade e riqueza na produção. Apenas não podem ser chamados de grupos de música de raiz. Se a avaliação crítica não gosta, nem se agrada dessas bandas, nada poderão fazer, diante do sucesso e público que eles alcançaram.

E disco de inéditas, Zé, quando vem o próximo?

ZÉ RAMALHO –
Não sei ao certo. Tenho material inédito para gravar, só que não sei quando. De vez que, cada vez menos, há um público que compre discos em lojas – cada vez mais escassas – ou em sites, a que só uma parte do público consumidor tem acesso. É como atirar pérolas aos porcos. Não sei se terei tolerância e paciência para gravar um disco só com minhas músicas, letras e arranjos, para ter que ser, também, o lançador, controlador e recolhedor em todo o processo de consumo. É um saco e uma tristeza me ver nesse tempo em que os valores foram invertidos. Rádios, televisões, mídia em geral, nenhuma dessas facções se interessará por nenhum disco que tenha músicas inéditas – não importando o artista, nem o tempo de carreira que ele tenha.


José Teles

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Zé Ramalho Canta Jackson do Pandeiro


Pegando o mote junino Zé Ramalho começou a gravar mês passado o seu mais novo disco, desta vez uma homenagem ao Rei do Suingue da Música Nordestina, neste disco vai ter seis gravações inéditas de um total de 12 gravações, o disco vai sair pelo Selo Discobertas, produzido por Marcelo Fróes.

  • Quadro Negro
  • Cabeça Feita
  • Lamento Cego
  • Lá Vai a Boiada
  • Forró de Surubim
  • Forró na Gafieira




sábado, 20 de fevereiro de 2010

A Saga de um Visionário da Música Brasileira

Ao enfocar a trajetória individual desse ícone de nossa música, o documentário "Zé Ramalho, o Herdeiro de Avôhai" celebra ao mesmo tempo a universalidade e a força da arte brasileira plasmada na riqueza de gêneros e expressões de valor incalculável, a despeito das adversidades e dos contrastes sócio-econômicos regionais.

Das origens de menino pobre, nascido na cidade de Brejo do Cruz, no sertão paraibano, ao sucesso nacional, a saga e a obra de Zé Ramalho remetem a desafios pessoais e coletivos, como também interligam as influências regionais com a cultura além fronteiras. Entre desafios e superações Zé Ramalho transpassou limites, até se tornar um patrimônio nacional.
Hoje, dentre milhares de admiradores de todas as idades, gerações após gerações têm comprovado que esse visionário da música brasileira criou uma obra de caráter universal.
O filme é pontuado por referências às fases que constituem a formação e origem da pessoa e do artista. Num primeiro momento, as lembranças de sua infância e adolescência entre Brejo do Cruz (onde nasceu) e Campina Grande, seguido pelas aventuras da juventude na cidade de João Pessoa, onde se construiu sua base intelectual e musical, influenciada pelos movimentos culturais da época, como a Jovem Guarda, os conjuntos de baile, o rock internacional e a literatura surrealista. Por fim, contempla-se a projeção nacional, após a luta para ingressar no mercado fonográfico do eixo Rio-São Paulo, entremeado pelos dramas pessoais, o ostracismo da mídia, a dependência quimica, até o ressurgimento após a superação dos problemas, paralelo ao redescobrimento da mídia e da renovação do público para a sua obra.
Depoimentos de familiares, de vizinhos de infância e amigos do artista, gravados nas cidades de Brejo do Cruz, João Pessoa e Rio de Janeiro, servem como fonte para subsidiar o documentário com informações e imagens sobre momentos e fases marcantes de sua vida.
O documentário mostra ainda um registro do show histórico realizado na Praia de Tambaú (João Pessoa), em janeiro de 2007. Destaque também para imagens das cidades que marcaram a trajetória de Zé Ramalho, pontuando as entrevistas e os clips com canções que se tornaram clássicas da música brasileira como "Vila do Sossego", 'Avôhai", "Jardim das Acácias", "A Peleja do Diabo com o Dono do Céu", "Admirável Gado Novo", "Falas do Povo", "Bicho de Sete Cabeças", "Chão de Giz", "Dança das Borboletas", "Galope Rasante", "Beira Mar", entre outros.
Do ponto de vista da linguagem, vale salientar a busca de uma perspectiva metalinguistica, revelada em alguns momentos através da interação da equipe técnica com os personagens como também através da utilização de trechos de filmes relacionados com a vida e a obra de Zé Ramalho.
A entrevista principal com Zé Ramalho, que serve de guia para o documentário, foi realizada no centenário teatro Santa Roza (João Pessoa), local onde ele realizou seu primeiro show profissional, o "Atlântida", em 1974 e performances emblemáticas do inicio de sua carreira musical.
Outros depoimentos do artista foram gravados na Praia de Camboinha (Cabedelo), no calçadão da Praia do Leblon (Rio de Janeiro) e em seu apartamento no Rio de Janeiro, onde ele reside com a mulher (Roberta Ramalho) e os filhos cariocas (José e Linda).
O filme traz ainda revelações inusitadas de personagens ligados ao tempo em que Zé Ramalho atuou em bandas musicais, ou conjuntos de baile (como eram conhecidos), em João Pessoa. Figuram aqui amigos de adolescência e juventude como: Roberto Lira, um dos fundadores do Grupo "Os Demônios" (onde Zé iniciou sua carreira musical); Floriano Miranda (lider do lendário "Os 4 Loucos", que era o grupo mais famoso da época em João Pessoa); Hugo Leão, que era o lider do Gupo "The Gentlemen" (o mais importante no inicio da formação profissional do artista); Eduardo Stuckert e Onaldo Mendes, produtores de alguns dos primeiros shows do inicio da carreira solo de Zé Ramalho em João Pessoa. Esse período representa o inicio da formação
musical e a importante vertente que bebia e consumia fazendo covers de sucessos da Jovem Guarda e de grupos ingleses como Beatles e Rolling Stones. Isto é, a cultura pop que se instalava no mundo e na Paraíba também.
Conta ainda com a participação de Alceu Valença, Geraldo Azevedo e Elba Ramalho, parceiros de uma geração de artistas nordestinos que chegou ao Sul do país na década de 70 para ganhar a projeção no mercado fonográfico nacional; além de Carlos Alberto Sion, produtor do primeiro disco de Zé Ramalho (Zé Ramalho, 1978), que tornou o artista conhecido nacionalmente como Avôhai, Chão de Chiz e Vila do Sossego, clássicoso da música brasileira contemporânea.

Elinaldo Rodrigues


Da Pedra de Turmalina à Pedra da Gávea

Locações e Abordagens

  • Brejo do Cruz
Cidade do sertão paraíbano onde nasceu Zé Ramalho. Depoimentos e imagens captados no lugar ressaltam as contradições entre a beleza e a rusticidade do ambiente, permitindo impressões paralelas entre o tempo que Zé viveu sua infância e a realidade vivida hoje na cidade.
  • Campina Grande
Onde o artista viveu grande parte de sua infância. A partir de uma música instrumental de Zé Ramalho e imagens históricas de Campina Grande extraidas dos filmes de Machado Bittencourt, "O Herdeiro de Avôhai" faz referência à cidade onde o personagem pela primeira vez na vida teve contato com o rádio, ouvindo cantores repentistas e ícones da música regional como Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga.
  • João Pessoa
O lugar mais importante na iniciação musical de Zé Ramalho. Além dos lugares onde foram captados os depoimentos, destacando-se a beleza e as peculiaridades da paisagem, que ilustram clips com músicas do artista que foram inspiradas em João Pessoa, como "Jardim das Acácias" e "Vila do Sossego".
  • Show em Tambaú
Um show histórico do artista realizado na Praia de Tambaú, em João Pessoa, em janeiro de 2007, com um público de mais de 100 mil pessoas. Trechos do show atravessam o documentário, intercalando as entrevistas.
  • Rio de Janeiro
O lugar foi cenário das fases mais difíceis na carreira de Zé Ramalho, mas também foi onde ele realizou suas primeiras grandes conquistas como artista. Imagens de Zé Ramalho pelo Leblon nos permitem colocar em paralelo o tema das amarguras vividas na cidade, com o luxo e conforto familiar que ele tem hoje. Além dos clips criados com músicas de Zé Ramalho inspiradas no Rio de Janeiro, o lugar é cenário também para gravação de outros depoimentos do artista.
  • Filmes - imagens dos filmes "Conterrâneos Velhos de Guerra (Vladimir Carvalho) - com trilha sonora de Zé Ramalho, "Histórias de Zé Ramalho na Pedra do Ingá" (Otto Guerra) e "A Cana" (Zé Ramalho e Hugo Leão) nos permitem referências históricas e também abordagens metalinguisticas, considerando especialmente a interação de Zé Ramalho com o cinema.
  • Trilha Sonora - algumas das principais canções de Zé Ramalho atravessam o filme em clips ou cantadas e tocadas ao vivo pelo próprio artista.


sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

DVD Documentário “Zé Ramalho – O Herdeiro de Avôhai”






Já está à venda o documentário "Zé Ramalho - O Herdeiro de Avôhai" que conta a saga de Zé Ramalho, o documentário é produzido pelo jornalista e documentarista Elinaldo Rodrigues.








Preço: R$ 20,00 + frete

Vendas por depósito bancário

Contato: janelacultural@yahoo.com.br


A Última Nau

O Poema de Fernando Pessoa (A Última Nau) faz parte da Trilha Sonora da novela das 7 'Tempos Modernos' da Rede Globo na voz de Zé Ramalho.


Levando a bordo El-Rei Dom Sebastião,
E erguendo, como um nome, alto, o pendão
Do Império,
Foi-se a última nau, ao sol aziago
Erma, e entre choros de ancia e de presago
Mystério.

Não voltou mais. A que ilha indescoberta

Aportou? Volverá da sorte incerta
Que teve?
Deus guarda o corpo e a forma do futuro,
Mas Sua luz projecta-o, sonho escuro
E breve.

Ah, quanto mais ao povo a alma falta,

Mais a minh'alma atlântica se exalta
E entorna,
E em mim, num mar que não tem tempo ou 'spaço,
Vejo entre a cerração teu vulto baço
Que torna.

Não sei a hora, mas sei que há a hora,

Demore-a Deus, chame-lhe a alma embora
Mystério.
Surges ao sol em mim, e a névoa finda:
A mesma, e trazes o pendão ainda
Do Império.

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Quem sou eu