quarta-feira, 23 de junho de 2010

Entrevista

Desde o início da década passada, Zé Ramalho tem lançado songbooks em homenagem aos artistas que mais o influenciaram. Em 2001, o cantor paraibano gravou um CD dedicado a Raul Seixas pela BMG. Sete anos depois, o homenageado foi Bob Dylan, em Tá Tudo Mudado (EMI). No ano passado, Zé firmou uma parceria com o selo Discobertas, de Marcelo Fróes, e soltou um CD que reunia interpretações suas para as músicas de Luiz Gonzaga.
Nesse ano, foi a vez de Jackson do Pandeiro ser o homenageado. Produzido também em parceria com o selo Discobertas, o projeto destaca-se por não conter apenas releituras, mas também seis músicas inéditas. “Consegui a liberação para gravá-las porque Zé Gomes, um dos meus músicos, é sobrinho do Jackson e guardião legal de sua obra. Foi ele que me passou essas gravações raras, das quais destaca-se Lá Vem a Boiada”, explica. Abaixo, Zé Ramalho comenta esse novo disco e outros temas relacionados à sua carreira.

Helder Maldonado – Você já gravou disco em homenagem a Raul Seixas, Bob Dylan e Luiz Gonzaga. Agora é a vez de Jackson do Pandeiro. Porque tem preferido elaborar songbooks em vez de lançar discos inéditos?

Zé Ramalho – Não há uma razão específica para justificar. É uma fase da minha discografia, em que estou demonstrando habilidade como intérprete e arranjador, produtor e diretor musical. São discos preciosos para as gerações futuras e obviamente que deverei voltar à linha de gravar trabalhos inéditos. Isso ocorrerá em dois ou três anos no máximo.

HM – Existem outros artistas que você pretende homenagear no futuro?

ZR – Sim. Provavelmente o próximo CD da coleção Zé Ramalho canta… será em homenagem aos Beatles, que, assim como os outros já gravados, foi de grande influência para mim.

HM – Como você teve acesso às músicas raras contidas no disco?

ZR - Um dos meus músicos, o Zé Gomes, é sobrinho do Jackson do Pandeiro e tambem cultor (guardião legal) da obra do Jackson, tendo o poder de autorizar gravações ou não. Foi ele quem me passou algumas gravações raras do tio, tiradas do acervo que ele guarda com carinho. La vai a Boiada é uma das mais preciosas.

HM – Seu novo show será baseado apenas no repertório desse disco?

ZR – Não, isso jamais seria possível, pois o público não aceitaria. Todos querem ouvir os grandes sucessos da minha carreira em todos os shows. Ano a ano eu mudo metade ou 1/3 do repertório, mas há um bloco de músicas que não podem faltar como: “Admirável Gado Novo”, “Avôhai”, “Vila do Sossego”, “Chão de Giz”, “Eternas Ondas”, “Frevo Mulher”, entre outras.

HM – Pretende apresentar um show com o repertório repleto de versões para Bob Dylan, Raul, Gonzação e Jackson?

ZR – Isso também não é possível. Não dá para misturar tudo num caldeirão só. São coisas diferentes, as quais já apresentei: um show só para Raul e um show só para Bob Dylan. Se eu fizesse isso, seriam várias horas de show e nao é assim que se faz.

HM – Resgatando o cancioneiro de Jackson – um artista pouco lembrado no sul e no sudeste – você garante que certas pessoas tenham interesse em procurar a obra do cantor. Porém, você concorda que seria também interessante que as gravadoras reeditassem discos dele e os meios de comunicação também prestassem tributos a esse grande expoente da música nacional?

ZR – Isso seria de bom êxito. Porém, não vejo mais possibilidades de as gravadoras relançarem tais obras. Porque elas mesmas não dispõem desse precioso arquivo. Agora, quanto aos meios de comunicação, digo para você mesmo, que está fazendo a pergunta: o que você fará para executar sua própria ideia?

HM – Zé, você lança discos com uma frequência superior a de muitos artistas contemporâneos. Mesmo na época de crise, você aposta no formato físico. Faz por vontade própria ou por uma certa urgência de mostrar material novo e diversificado em um mercado tão competitivo como o atual?

ZR – Faço com este ritmo intenso devido à minha paixão pela música. É por ter condições, conhecimento e maturidade para realizar anualmente tais trabalhos. E nunca vou parar. Mesmo que não existam mais gravadoras, estarei sempre dando um jeito de estar no mercado.

HM – Zé, liste seus maiores erros, acertos e excessos na vida e carreira.

ZR – Não vou responder isso. Isso é asunto para outra entrevista, com várias páginas.

HM – Qual a importância de seu relacionamento profissional com Marcelo Fróes?

ZR – A importância é a produção musical-cultural que realizamos com seriedade e amizade também. Tudo que fazemos é debatido, conversado e estudado. E com ele realizo projetos que, com certeza, com as últimas gravadoras que ainda resistem, não seriam possíveis de serem feitos.

HM – Você ainda acompanha mitologia grega, revista em quadrinhos e ufologia?

ZR – Só a ufologia permanence na minha proposta para desenvolver a curiosidade pessoal. Porque a ufologia não é uma história do passado. É o presente e o futuro, decorrendo ao nosso lado. Isto é: ao lado da realidade diária, está essa outra realidade ufológica, que assusta, é invisível para a maioria, mas está presente lado a lado na nossa vida, no nosso planeta.

HM – O documentário “Zé Ramalho – O Herdeiro do Avohai” teve um resultado que te agradou?

ZR – Sim. É um documentário precioso e cuidadoso, realizado por um cineasta e jornalista paraibano que se dedicou a realizar tal trabalho com paciência e objetividade. Por ter sido feito na Paraíba, tem mais valor ainda e contém imagens e relatos preciosos ditados por mim mesmo.

HM – Existe a possibilidade de ser lançada uma biografia sobre sua vida também?

ZR – Quem sabe? Existem alguns livros que, se não são biográficos, já contam parte da minha vida. Quem quiser saber quais são estes livros, visite o meu site (www.zeramalho.com) na seção livros.

HM – Nunca te passou pela cabeça escrever um livro de memórias ou de crônicas?

ZR – Já passou, sim, e isso poderá ser realizado num futuro próximo. O ghost writer é que terá que aparecer para me ajudar nessas lembranças e narrativas.

Helder Maldonado

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Forró Para Dar e Vender

A produção fonográfica de época não deixa dúvidas: São João chegou. Alguns artistas não precisam necessariamente da data para cantar. Mas aproveitam a festa para vender produtos especiais. É o caso de Zé Ramalho, que regrava Jackson do Pandeiro num álbum que passa longe dos típicos CDs tributo.



Ou seja, produzido com esmero nos arranjos, interpretações e participações. Tanto que faz o registro parecer seu mais novo disco de carreira. O pernambucano Ed Carlos vai no mesmo caminho, reproduzindo o maior nome do cancioneiro nordestino, Gonzagão, num álbum que foi lançado em 2008, mas que ele reedita agora. O balaio do forró é grande e também abriga artistas que lançam disco apenas para dizer que estão na ativa, com seus respectivos shows. Esses discos não são comerciais. São confeccionados em embalagem simples e vendidos apenas durante os shows. É o caso de Novinho da Paraíba e Forró Culé de Xá, comentados também nessa página.

Zé e Jackson - Zé Ramalho canta Jackson do Pandeiro deixando a impressão de que mais ninguém o faria com tanta personalidade. É uma tentação para qualquer cantor chegar perto do que fazia Jackson, sublinhando suas divisões e sincopados marcantes. Zé tem sua própria marca vocal e não precisa tomar emprestado os recursos do outro. Canta à sua maneira clássicos do forró sambado de Jackson, a exemplo de Forró na gafieira, o Canto da Ema, além de um medley com Sebastiana, Um a um e Chiclete com banana. Zé se permite, inclusive, em Chiclete com banana, fazer as mesmas estripulias vocais, numa versão que acaba num samba danado, com pandeiro e a sanfona de Waldonys, produtor da faixa. Metade do repertório do CD (o disco tem 12 faixas) é inédita na voz de Zé. A outra metade foi retirada de fonogramas de discos anteriores.

Dirigido pelo jornalista Marcelo Fróes, dono do selo Discobertas, as músicas trazem arranjos bem diferentes do original, o que as aproxima do universo de Zé Ramalho, que considera Jakson a "segunda coluna do templo da música nordestina". Sendo o primeiro, claro, Luiz Gonzaga. O álbum, segundo Zé Ramalho, "orgulha pelo conteúdo e fé". De fato, além das canções mais conhecidas e animadas de Jackson do Pandeiro, o tributo resgata músicas lentas e contundentes, que Jackson assinou com parceiros.

Entre essas últimas, Lamento cego (com Nivaldo Lima), que abre o CD, e a cantoria Ele disse (de Edgard Ferreira, gravada por Jackson), que traz trecho de um pronunciamento de Getúlio Vargas, de 1º de maio de 1951. Há também as canções mais conhecidas do cancioneiro de Jackson, que Zé reiventa. Entre elas, a Cantiga do sapo e Casaca de couro, com a sanfona de Sivuca. Um luxo só.

Quadro-negro, outro grande sucesso, tem andamento mais lento, assim como o forró Cabeça feita. Se uma das maiores heranças de Jackosn foi justamente seu modo de cantar diferenciado, sendo ele interpretado por Zé Ramalho (outra "grife" vocal), o grande mérito da obra só adquire mais valor.

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