sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

O Bicho da Poesia

Para bem ouvir e absorver Zé Ramalho, convém se despir de toda a erudição e deixar o bicho da poesia entrar pelos poros. Sua poesia é pele, é intuição (mais até do que inspiração), eis um bicho-poesia em sua inteireza: nada de bibliotecas submersas, citações vãs, tudo brotando das veias e fertilizando o solo. Para bem ouvir e absorver Zé Ramalho, é preciso se livrar de todos os preconceitos e se deixar afogar no mar da poesia, no charco, no vasto charco da vida real, da máquina de triturar carne e da vida comum. Se poesia é lama, amálgama do suor do rosto caindo no barro do chão, eis o poeta-caranguejo, com suas tenazes e sua solidão. Para bem ouvir e absorver Zé Ramalho, urge-se privar de todos os conceitos, pois sua obra nega quaisquer uns que tenham sido por nós absorvidos e absolvidos. Essa obra musical os condena e os rejeita na sensatez de sua loucura e nas máculas de sua pureza.
Conheci Zé Ramalho nos bailes da vida. Eu, dançando. Ele, tocando. Eu, me tocando. Ele, se dançando. Vi, primeiramente, sua banda roqueira, competente guitarrista cover inigualável dos Ventures, dos Incriveis, insecrutável como Jimy Hendrix, magro com Keith Jarret, mistico como George Harrison, louco como Eric Clapton. Louco, sim. A melhor banda de rock da Paraíba nos anos 60 chamava Os Quatro Loucos. Ele era um dos quatro. Curvado sobre as cordas do instrumento, tomando choque da eletricidade de Paulo Afonso, parecia um centauro sobre a guitarra colorida. Na nossa Liverpool mitica, na Memphis ensolarada de nossos sonhos, ele ajudava a dar ritmo a nossa rebeldia. As cordas de sua guitarra faziam uma ponte entre as praias da Paraíba e o nevoeiro espesso de Londres do Balanço.
Atenção, leitor: não percebi o Rimbaud escondido naquela corcunda. Nem mesmo quando Carlos Aranha, meu amigo velho, me apresentou no Bambu, restaurante da boemia pessoense, perto do Bica, Zoo local. Aquele lá, o violeiro de Alceu Valença, assoando o nariz insistentemente no lenço já empapado de catarro, pareceu-me apenas um bicho da noite, como nossos primos os sagüís que dormiam nos galhos da árvores próximas. Talvez pudéssemos cobrar ingressos das crianças para vê-lo, sentado à mesa como se empunhasse um violão, um animal aparentemente desconfortável em sua própria pele. Não sei por que, mas imaginei, naquele encontro rápido, que ele poderia ter saido diretamente de um conto inédito de Jerome David Salinger, herói da minha adolescência. Ali, associado com Aranha, com quem tinha feito o show Ramaranha, também não liguei nada de sua figura inusitada ao êxito comercial.
Sem contar com a apresentação de Alceu em Olinda no Festival da Globo, só o veria de novo no paloco do Teatro São Pedro, na Barra Funda, na Paulicéia Desvairada, onde eu fazia ninho. Lançava seu primeiro disco, Zé Ramalho. Talvez por associá-lo com o autor de The catcher in the rye, logo pensei que pudesse inclui-lo na ampla herança que Bob Dylan havia deixado pelos continentes. Até hoje, Chão de Giz me dá a sensação de que poderia ter sido composta por Dylan ou por Holden Caufield (lá sei eu, quem sou eu para dominar os mistérios da criação). Levei-o para minha casa e o submeti a uma audição completa do poeta de Like a rolling stone. Ele nunca o tinha ouvido antes. Não me dei por achado, apelidei-o de Zylan, não o filho de Bob, mas seu primo. Quem é que vai entender as encruzilhadas da canção popular?
José Ramalho Neto, paraibano de Brejo do Cruz, no mesmo sertão seco da Paraíba onde fica Uiraúna, onde eu nasci, revelou-me seu diabólico pacto com o Cão.

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