segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

O Bob Dylan da Paraiba

Apesar de tão geograficamente distantes, Zé Ramalho e Bob Dylan têm muita coisa em comum. Até simplificando um pouco, podemos dizer que Zé Ramalho é a versão tupiniquim de Bob Dylan. A jornalista Ana Maria Bahiana, em texto escrito no encarte de "Zé Ramalho Canta Bob Dylan - Tá Tudo Mudando", mostra bem essa proximidade: "A possibilidade de um paraibano de Brejo da Cruz ter algo em comum com um judeu norte-americano das planícies geladas do meio-oeste pode parecer insólita até que se realiza que ambos compartilham um profundo amor pela palavra cantada".
E esse é exatamente o ponto de convergência entre Ramalho e Dylan: a palavra cantada. Assim como o trovador norte-americano, o trovador brasileiro sempre teve como principal característica letras com longas narrativas que são praticamente faladas, ao invés de cantadas. Assim, se a gente tem um "Chão de Giz", eles têm "Don't Think Twice It's Alright"; se cantamos "Avôhai" com uma naturalidade tão distinta que fez da canção um grande sucesso popular, os norte-americanos fizeram o mesmo com "Like a Rolling Stone".
E, que tal se o nosso trovador vertesse para o português as letras e incorporasse os elementos sonoros brasileiros nas canções de seu colega norte-americano? Nossa, jogada de gênio! Como ninguém nunca havia pensado nisso antes?
Zé Ramalho demorou 30 anos para concretizar o seu ambicioso projeto. E, talvez, esse tenha sido o momento certo. O paraibano já tem cacife necessário para se aventurar em um projeto que pode causar muita controvérsia entre os dylanescos de plantão. E, como Zé Ramalho já imaginava (ou deveria imaginar), "Tá Tudo Mudando", realmente, tem tudo para causar muita controvérsia.
Musicalmente, em praticamente todo o álbum, o cantor paraibano se sai muito bem. Se Bob Dylan usa e abusa dos elementos sonoros descobertos em seus heróis como Woody Guthrie e Odetta, Zé Ramalho verte com maestria as canções para a sonoridade de Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga. Na maioria das vezes, especialmente em "Como Uma Pedra a Rolar" e "If Not For You", as coisas funcionam muito bem. A primeira ganhou uma discreta sanfona de Dodô Moraes, enquanto a segunda se transformou em um xote, com uma percussão bem brasileira. A canção, a única cantada em inglês poderia ser uma bela trilha sonora de uma festa junina no meio-oeste norte-americano... "Batendo na Porta do Céu" ganhou uma versão bem diferente da gravada em "Antologia Acústica" (1997). A letra mudou pouco, mas a sonoridade, mais puxada para o frevo, ficou bem melhor, a ponto de a gente se esquecer da letra que insiste em um chato "bate, bate, bate na porta do céu". Outra que, musicalmente, também se sobressai é a faixa-título, na qual Dodô Moraes manda muito bem mais uma vez.
Em outros momentos de "Tá Tudo Mudando", Zé Ramalho preferiu não se arriscar tanto. "O Homem Deu Nome a Todos Animais" e "Negro Amor" (versão para "It's All Over Now, Baby Blue") são dois exemplos. A primeira apresenta uma sonoridade por demais convencional, enquanto a segunda tem uma letra já bem conhecida, de autoria de Caetano Veloso e Péricles Cavalcante, e já gravada por Gal Costa e pelos Engenheiros do Hawaii. A letra é interessante, mas destoa um pouco da concepção de ineditismo do trabalho.
Mas voltando aos bons momentos do álbum, "Mr. do Pandeiro" foi outra que se transformou completamente, vertendo-se em um rápido coco, nos seus segundos finais. A letra, que chega até a citar Jackson do Pandeiro ("Hey Jackson do Pandeiro, toque para mim! / E entre as canções desta manhã / Eu poderei te seguir"), é um dos grandes achados do disco. Mas, em outros momentos, a necessidade de Zé Ramalho em atualizar as letras, acaba soando um pouco "over". Esse é o caso de "Rock Feelingood" (versão para "Tombstone Blues", na qual Zé Ramalho faz uma miscelânea poética que chega até o filme "Tropa de Elite" ("O Tropa de Elite / Mostrou a classe média / Como sendo responsável / Por essa grande tragédia / Pois compra a sua droga / E financia a violência").
Entretanto, em "O Vento Vai Responder", Zé Ramalho foi genial ao substituir as "balas de canhão" pelas "balas perdidas" ("Quantas mais balas perdidas voarão / Antes de desaparecer?"). Um pequeno detalhe, assim como tantos outros, que prova que "Tá Tudo Mudando" apesar de arriscado, é um belo disco.


Fonte:
Luis Felipe Carneiro

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