sábado, 3 de outubro de 2009

Na cabeça do cometa, girando na carrepeta...


Há exatos 60 anos, na madrugada do dia 3 de outubro de 1949, no município de Brejo do Cruz, no Sertão Paraibano, distante 458 quilômetros de João Pessoa, sob a luz de candeeiro, ao som do pio da coruja, e com o cordão umbilical cortado a peixeira, nascia José Ramalho Neto, o futuro cantor e compositor Zé Ramalho, de estilo inigualável, filho do poeta e seresteiro Antônio de Pádua Pordeus Ramalho e da professora Estelita Torres Ramalho.
O compositor paraibano é um dos grandes representantes Foto: Divulgaçao/DB/D.A Press A morte do pai, por afogamento, no açude de Poços, torna a vida da família muito mais difícil, obrigando dona Estelita a entregar Zé Ramalho aos cuidados dos avós, José e Soledade Alves Ramalho, o Avôhai, este, o mentor que educa o menino e o apresenta à fascinante paisagem sertaneja. O menino cresce na fazenda de Avôhai (contração das palavras "avô" e "pai"), em contato com as exóticas fauna e flora, ouvindo lendas e cantadores da região.
Nos primeiros anos da década de 50, morando, agora, em Campina Grande, Zé Ramalho começa a se interessar por assuntos bíblicos, mitologia greco-romana, cantoria e literatura de cordel, temas e elementos musicais centrais de suas primeiras composições como artista profissional. No início dos 60, a família o envia para João Pessoa, onde passa no vestibular e começa a estudar medicina na Universidade Federal da Paraíba.
Na capital, Zé Ramalho atiça o fogo que faz ferver o seu caldeirão cultural, ouvindo todo tipo de música que brotasse no terreiro da inquietação, de Roberto Carlos aos Beatles e Jimi Hendrix, de Renato e seus Blue Caps a Bob Dylan e Rolling Stones, de Raul Seixas a Pink Floyd. Transforma-se em assíduo espectador de "filmes de arte", e consome com avidez poesia modernista e literatura esotérica, de Carlos Drummond de Andrade a Carlos Castãneda.
No Colégio Marista Pio X, cria com amigos o grupo Os Jets. Desfeito o grupo, entra para Os Quatro Loucos, liderado por Vital Farias, uma das bandas da era de ouro dos bailes da cidade, passando, ainda, como guitarrista, por Os Demônios eThe Gentlemen. No início dos anos 70, o filme Woodstock, de Michael Wadleigh, injeta o ideário da contracultura definitivamente em sua cabeça. Zé Ramalho, agora, quer voar...

As primeiras canções

Isolado em sua "Vila do Sossego", na praia do Cabo Branco, Zé Ramalho compõe, em 1974, Zé Ramalho, algumas das músicas que, logo mais, injetaria sangue novo na corrente sanguínea da música popular brasileira, entre elas,"Avôhai", "Chão de Giz" e "Vila do Sossego". Com The Gentlemen grava um disco pela extinta gravadora Rozenblit, do Recife (PE), e o lendário álbum Paêbiru, com Lula Côrtes, inspirado nas inscrições da Pedra de Ingá.
Ao participar do filme Nordeste: Cordel, Repente e Canção, de Tânia Quaresma, Zé Ramalho (re)descobre sua afinidade com o romanceiro popular nordestino. Numa atitude antropofágica, mistura rock e repente, cordel e poesia moderna, e, deste amálgama de linguagens, nasce o seu estilo musical único, inconfundível, que dali a pouco, balizado pela voz gutural e um visual de hippie-profeta, iria não só encantar, mas inquietar o Brasil.

O sucesso e a queda

Em novembro de 1977, Zé Ramalho entra finalmente no estúdio da CBS para gravar, em oito canais, Zé Ramalho, seu disco de estréia. Entre os músicos convidados, Patrick Moraz (ex-Yes) e Sérgio Dias (ex-Mutantes). O álbum é lançado no ano seguinte, e a "estranheza" provocada por faixas como "Avôhai", "Vila do Sossego", "Chão de Giz" e "A Dança das Borboletas", chamaram a atenção do público e da crítica.
Mas o sucesso, mesmo, só viria em 1979, com o disco A peleja do diabo com o dono do céu, com a faixa título, "Frevo mulher", "Admirável gado novo" e "Garoto de aluguel" incendiando de vez o país. Morando em Fortaleza (CE), mas cruzando o Brasil de norte a sul e de leste a oeste para atender o crescente público que querem vê-lo ao vivo, Zé Ramalho grava o visionário A terceira lâmina (1981) e o polêmico Força verde (1982), que o derruba do cometa.
Acusado de plágio ao musicar, com o título "Força Verde", uma história de Hulk publicada pela Marvel Comics (na verdade, um poema do irlandês William Beats Yeats), Zé Ramalho é crucificado pela imprensa e inicia um longo período de crise, ingressando no inferno das drogas. Sai de Fortaleza e refugia-se no Rio. Grava Orquídea negra (1983), Por aquelas que foram bem amadas ou... pra não dizer que não falei de rock (1984), mas o ostracismo permanece.
Os álbuns lançados entre 1985 e 1987 - De gosto, de água e de amigos, Opus visionário e Décimas de um cantador - também não acontecem. O vento da sorte começa novamente a soprar a favor do artista em 1985, quando a Rede Globo encomenda a Zé Ramalho uma música para a trilha sonora da novela Roque Santeiro.


Fonte:
Diário de Natal

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